Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

30 de maio de 2011

Do sonho induzido pelo marketing do PSD ao duplo equívoco de Marcelo

Eu estava curioso, mais do que é costume, para ouvir Marcelo Rebelo de Sousa este domingo. Desde logo porque era o seu último comentário na TVI antes das eleições. Mas também porque ao longo da semana o professor disse algo que me deixou a matutar.

A meio da semana Marcelo referiu numa televisão a propósito das sondagens que, nas contas dele, “acreditava” que apesar dos números “o PS tem 10% de possibilidades de vencer as eleições“. Fiquei a matutar. “Acreditar” é colocar o assunto no domínio da crença. Do desejo, ou do pensamento positivo (wishful thinking). E isso não é nada Marcelo: ele distingue bem entre os assuntos da fé e os da razão.

Ter Marcelo a colocar no departamento da crença o resultado das eleições por um lado demonstra o quão empatada a situação está. Mas por outro lado poderia indiciar a quebra não direi da confiança, mas pelo menos do entusiasmo com que as hostes laranjinhas têm encarado o que têm vindo a apresentar — com o apoio de especialistas da área, incluindo uma dose generosa de comentadores, jornalistas e bloggers de extração neoliberal — como a sua heróica “missão salvífica”: libertar o Portugal “destruído” pelo “socialismo” (bocejo).

A minutos tantos Marcelo falou desse seu “momento 10%” e rectificou. Passou-os “para os 30%“. Argumentando algo como (não consigo reproduzir de cor, mas o sentido é este): “por muito estranho que isso pareça aos adversários de Sócrates e aos que não gostam do PM, a verdade é que os dois partidos estão dentro da margem de erro, o PSD não descolou, no domingo passado parecia que ia descolar mas não descolou“.

É uma justificação extraordinária, de facto. “Por muito estranho que isso pareça” a quem “está farto” do Primeiro Ministro, há pessoas que não estão fartas do Primeiro Ministro. Ao ponto de quererem votar nele.

Por muito estranho que isso pareça aos adversários partidários de José Sócrates, do seu estilo e do seu governo, há uma quantidade de pessoas que se dá bem com o seu estilo e métodos, e aprecia os seus resultados.

Bem sei que lhes parece extraordinariamente insólito, mas essa quantidade é idêntica, com uma margem de erro de 3%, à quantidade de pessoas que fazem a soma dos dois grupos, o grupo dos que genuinamente o detestam e o grupo dos induzidos no sonho do PSD.

É extraordinário, efetivamente, o efeito desse marketing do PSD, que tem vindo a insistir no mesmo dogma desde sempre: Sócrates é o problema. Até pessoas como Marcelo foram por aí fora, deixando que a punch line se entranhasse. Na hora do reality-check começam a sair do sonho artificial em que foram induzidos, despertando para a realidade. Como um shampô rasca que afinal faz cair o cabelo.

E a realidade, sórdida e má e dura como é norma das realidades que se prezam, é esta: Sócrates é o problema, sim, mas do PSD.

O duplo equívoco

Voltando a Marcelo. Na altura de desempatar, não conseguiu melhor para justificar a opção Passos Coelho do que isto: José Sócrates teria a reputação abalada internacionalmente, enquanto Passos talvez — e sublinhou ardilosamente o “talvez” — consiga impressionar os interlocutores internacionais e dar-lhes as garantias “imprescindíveis” de que Portugal “vai cumprir”.

E justificou com os exemplos grego e irlandês, cujos PMs tiveram de ser substituídos em eleições internas por terem arruinado a respetiva “credibilidade” nos processos de negociação da intervenção externa.

Sintetizando o que disse Marcelo com um olhar esperançoso: Sócrates está arrumado lá fora e Passos, como é fresco nestas andanças, talvez resulte.

Só que Marcelo se equivocou. Duplamente.

Em primeiro lugar, a forma como a União Europeia em geral e a Alemanha em particular tratavam Portugal há dois meses, antes da golpada doméstica que provocou a crise política, não dava o menor indício de falta de confiança em José Sócrates. Pelo contrário, a consternação evidente nos rostos de pessoas como Merkel, quando se soube da crise política provocada pela oposição portuguesa (e se pensou nos meses que ela ia fazer perder), prova que Sócrates mantém a sua “credibilidade externa” em patamares elevados.

Sócrates, aliás, estava a dar conta do recado da gestão minuciosa dos timings, dia a dia. Sem a crise política, essa gestão concertada com Merkel e Sarkozy teria dado algum resultado. A tempo — dizem os entendidos — de uma forma de intervenção financeira mais elaborada, pois está à vista na Grécia e na Irlanda o desastre do primeiro tipo de intervenção.

Em segundo lugar, os primeiros ministros grego e irlandês foram penalizados nas urnas não por terem perdido a “credibilidade externa”, como disse Marcelo, mas por terem sofrido um desgaste interno tremendo. A impopularidade das medidas impostas pelos interventores internacionais vitimou cada um deles em tempos diferentes. Mas vitimou-os aos olhos dos seus eleitores, e não dos seus interlocutores.

Para estes tudo se resume à legitimidade com que aqueles se apresentam. É claro que sabendo-se, pelas sondagens, da sua impopularidade doméstica, fica mais difícil negociar medidas que se sabe que dificilmente chegarão à prática.

Em Portugal José Sócrates não sofreu essa erosão — repito, interna — por ter pegado no dossiê da crise de forma diferente: gerindo o dia a dia e adiando as grandes decisões.

E por isso mesmo os interlocutores europeus nunca tiveram, e continuam a não ter, razões para descrer da capacidade de José Sócrates para aplicar a medidas do acordo de intervenção.

Assim, no domingo haverá muito mais gente a votar no PS do que os seus adversários políticos — e os levados na enxurrada da central de comunicação do PSD — gostariam. Por muito estranho que isso pareça.


Links:

Arquivo video do comentário de Marcelo na TVI, 29 Maio 2011