Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

25 de setembro de 2009

Em quem deve votar, leitor

Há 12% de hipóteses, pelo menos, de o leitor, em juntando a essa as duas qualidades de português e eleitor, não saber ainda em quem deve votar no domingo.

Pois eu digo-lhe.

1. Vote no PS de José Sócrates. É a minha escolha. Tenho a convicção que o homem aguentou o mais difícil barco em que vi governantes portugueses metidos. Enfrentou duas tempestades avassaladoras e globais e o barco, ainda que adornado e a precisar de pinturas e até umas ripas novas no casco, está a navegar. Acho de elementar justiça dar-lhe agora a oportunidade da sequência, ou da desforra contra as contrariedades da crise imprevista.

Uma das tempestades aliás não terminou. A crise do emprego — digam os marialvas à direita e à esquerda o que muito bem lhes apetecer — não terminou. Não tinha nada a ver, sequer, com a crise financeira (que é a minha forma educada de apelidar o roubo desorganizado à escala mundial a que assistimos nos últimos 20 ou 30 anos). O emprego vai continuar a faltar e nenhum político, de verdade ou de brincadeira, pode em consciência prometer acabar com ele ou, sequer, diminuí-lo nos próximos meses largos. É mentira.

E vai continuar a faltar porque o problema do emprego é a mudança de paradigma económico operada numa escala global. A alta mecanização do trabalho empurrou os filhos dos operários para os serviços, agora a alta tecnologia informática e de comunicações entrega nas mãos dos próprios consumidores o grosso do trabalho que ainda existia em grandes empregadores do terciário.

A pouca mão de obra necessária para os acabamentos das indústrias perenes é — graças à globalização de comunicações, cultural e de procedimentos — deslocalizada para os países onde o trabalho é mais barato.

2. Evite votar no PSD. Não sei com rigor onde está o futuro e tenho esperança que José Sócrates saiba sobre isso muito mais que eu — mas tenho a certeza que a “outra senhora” (o melhor soundbyte da campanha, honra a João Soares) sabe ainda menos. Pior: mostra-se convencida que o mundo é o mesmo mundo do cavaquismo, do betão e de Dias Loureiro, antes da crise financeira, da globalização e do 9/11 e a mensagem da sua fatia do PSD é uma mensagem sombria, desinspirada, rugosa.

Ah, mas Sócrates deu umas pistas sobre as direcções. Certas, entenda-se. A busca das energias que substituirão um petróleo cada vez mais caro e disputado. O choque tecnológico primário no ensino básico, tão importante que resistiu às pressões de gozo permanente em que a direita retrógada — acolitada pelos meninos do liberal coro que, na rarefacção académica que subsiste, passam por intelectuais de elite — tentou encapsular o que cedo lhe cheirou a sucesso popular. As vias de comunicação inteligentes, lógicas, racionais e estruturantes: falo dos comboios, e dos de alta velocidade em particular.

O homem não tem de fazer tudo. O país — o que o país tem de melhor, que é você –também tem de trabalhar. José Sócrates trabalhou que nem um mouro. Convinha pegarmos por aí, em vez de promover ao poder as redes que desesperam por voltar aos salões. Pegarmos na ponta do essencial trabalho e continuá-lo, com as correcções necessárias.

3. Vote no CDS-PP. Ora, a actual facção do PSD em exercício pouco mais fez, enquanto oposição, do que debicar nos casos que uma sociedade civil que começa a ter voz decidiu levantar, ainda que um pouco intoxicada com o seu próprio poder recente, proporcionado pelo acesso barato e fácil a meios de produção de opinião e informação.

No Parlamento — a casa da Democracia, visitada com periodicidade quinzenal pelos ministros do PS, num esforço de entendimento que um governo de maioria absoluta bem podia considerar supérfluo — os ferozes adversários do Primeiro Ministro foram… os outros. O Bloco, o PCP, Os Verdes. O CDS-PP.

Assim, caro leitor indeciso (ou mesmo decidido, mas ainda aberto a uma segunda opinião), se de todo em todo não consegue, mesmo, votar por uma segunda mão desta eliminatória em que o PS venceu o jogo fora, e se é conservador irredutível, então tem o CDS-PP. Note: o médico proibiu-me de alguma vez eu recomendar o voto num partido assim. Corro um grave risco de saúde ao fazê-lo. Mas por outro lado a minha democrática consciência força-me a indicar o melhor voto alternativo à direita do PS.

4. Vote no MEP. Ou por outra, os votos alternativos por ali na área do centro bem educado, lido e viajado, que — mais Estado, mais privado — tem ideias sempre úteis à governação. Se quiser juntar o atrevimento, deixe lá as velharias do centro-direita, ajude o MEP a enfiar dois deputados no Parlamento. São caras novas, o que é sempre bom, e Rui Marques não é um para-quedista nem um “líder” a aproveitar o momento quadrienal. Já tem alguma obra no serviço público e muito traquejo.

5. Vote no BE. Se, ao invés, o leitor indeciso é mais de esquerda, ou não sabendo nem respondendo também acha que os betinhos do CDS-PP não são grande coisa, e, repito, tem um dos raros e gravíssimos impedimentos a meter a cruz no quadradinho do PS (onde verá apenas e só o rosto de Sócrates), então, amigo, camarada, pá, vota no Bloco de Esquerda. Um bom retórico dá sempre jeito no Parlamento, sobretudo um que, como Louçã, tem coragem (e currículo académico) para enfrentar qualquer ministro dos dinheiros.

6. Vote na CDU. Sabe, estou um pouco cansado de ver os portugueses, e até eu próprio, até não há muito tempo, ignorarem Os Verdes. Bem sei que foram eles que escolheram coligar-se e aceitam pagar o preço de serem vistos como secundários do PCP. Mas são uns deputados incansáveis e atentos.

E também estou cansado da arrogância com que alguns tratam o PC e os comunistas. Caramba, que faz um homem quando o seu ideal se desfaz? Pois. Reinventa-se. Arruma os cacos e parte para outra. Não tenho nenhum tipo de medo do PCP e nem quando me contavam, criança, histórias de papões eu acreditava, quanto mais nos papões comunistas. Há nesse partido toda uma história de combate pela liberdade e pelos mais fracos, a que se soma a atenção ao lado humanista que (digo eu, convicto) deve caracterizar qualquer sociedade civilizada, moderna ou antiga. Sejamos honestos. Esqueletos no armário da ideologia, todos os partidos os têm, e a contabilidade de mortos é uma morbidez a colocar de lado com carácter de urgência.

Se és de esquerda pura (ou até da direita desiludida com o regresso dos antigos e o triunfo dos jovens betos), e não és, de todo em todo, capaz de votar no PS, e achas que o Bloco já tem mais do que merece, ora aí está um valor seguro: a CDU.

Se nenhuma das anteriores 5 recomendações e uma indicação muito clara o convenceu, leitor amigo, dispõe ainda dos outros partidos. Recomendo o MMS (são divertidos) e o MRPP (Garcia Pereira é um senhor). O PND também é opção (eu tenho de dizer isto a favor de um cliente ;) alojo o site do partido).

Mas até domingo pense nisto. Pense que, mesmo que não esteja satisfeito com os resultados deste governo, a oposição não fez bem ao PSD, que em vez de se renovar recuou à era pré-barrosista (sendo esta a sua natural evolução para o século em que já vivemos e vamos continuar). E que José Sócrates tem direito a uma oportunidade de mostrar o que vale num ambiente menos sufocante do que estes dois anos da tourada em que os financeiros inimputáveis nos bandarilharam a todos.