Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de maio de 2008

Jovens e política: o engano do presidente Cavaco Silva (Gen Y cares)

Não escrevi nada na altura por não ter encontrado uma expressão do que penso e o assunto não estar propriamente no topo da minha lista. Mas hoje encontrei um estímulo e um ângulo.

O presidente Cavaco Silva está enganado naquela história de os jovens não ligarem à política. Os jovens ligam à política. Não ligam é à política a que Cavaco (e quem fez o estudo) estão ligados, porque não estão ligados ao mesmo aparelho.

A ler vivamente, o artigo Why Gen Y Is Going to Change the Web que é mais lato do que “os políticos” (e não só) por cá pensam quando ouvem ou lêem as palavras “web” e “internet”.

Uma cheirinho do artigo, que é mais lato que a política, mas não foge desta, nem esta se pode colocar de fora do mundo global de comunicação em que “os jovens” estão mergulhados — eles são peças de informação com retorno, com relevo social e comunicacional, algo que eu nunca fui e Cavaco ainda menos:

They’re Socially Conscious: Gen Y cares about the world. They pay attention to politics, the economy, social causes, and environmental issues. They think they’re a force to be reckoned with in elections and follow the candidates online on social networks. They read the news, but not in newspaper format, which is is going to hurt that industry even more as time goes by.

Se a política quer chegar “aos jovens”, então a política tem de estar nos sítios onde os jovens estão, comunicar nos níveis em que os jovens comunicam. Isto parece-me elementar.

De outra forma, a percepção que os jovens têm “da política” (como em geral do mundo dos adultos) é formada exclusivamente por eles próprios dentro do quadro comunicacional em que se inserem, de acordo com os códigos próprios. A televisão, que ainda vêem, não exerce sobre eles a mesma influência que exerce sobre os irmãos e tios. Quem lhes diz o que pensar é o amigo por SMS, não o senhor que debita na televisão (que ambos estão a ver enquanto jantam, fingem que ouvem os pais e teclam).

Quando estava a preparar o artigo para o Público sobre a relação dos candidatos do PSD em particular, e dos políticos portugueses em geral, com a web 2.0, fui publicando aqui e no Expresso alguns posts com temas paralelos e mantendo algumas conversas. A reacção típica é a de encolher os ombros com a desculpa de que “isso é os americanos”, “Portugal tem pouca gente na Internet”, e demais tiradas de avestruz.

Eu já fui mais impaciente. Agora, vou explicando pacientemente que não é assim, temos já números relevantes (mais portugueses acedem à net do que portugueses compram jornais e revistas, por exemplo). E sobretudo tento explicar o invisível: a web social não é coincidente com “a Internet”, os jovens vivem numa esfera de comunicação que não se encerra num meio, é ambígua, é imersão total, é telemóvel, é consola, é leitor de MP3 tanto quanto é Internet.

Portugal já tem Gen Y — jovens nascidos com um computador na sala, que teclam desde os 2 anos, que iam brincar à Cidade da Malta como um recreio doméstico, que têm telemóvel desde os 8 anos, que têm conta no Photoblog desde os 11, fizeram todo o secundário mergulhados sozinhos, sem professores nem pais, num ambiente digital em rede e fizeram os trabalhos escolares pelo Google, e já estão a entrar no mercado de trabalho, a ter uma visão do mundo e uma consciência do que nele se passa e se devia passar. Esses jovens passaram a adolescência em comunicação constante entre eles, uma comunicação sem a intermediação dos adultos — e não falo dos segredos, que isso todas as gerações têm, falo da comunicação aberta, que passou ao lado dos adultos porque os adultos não compreendiam (não compreendem) as referências comunicacionais, era como chinês.

Ai, é uma desgraça, só falam com kapas e asteriscos, os telemóveis vieram estragar o português! — e pimba, sai uma geração incompreendida e desconfiada dos adultos.

Esses jovens construiram a sua consciência de geração autista — uma geração que foi educada a só se ouvir a si própria, vítima de uma descontinuidade nos símbolos operativos da comunicação — isto para não descer às análises sociológicas, que revelariam antes de mais a incapacidade dos adultos e da sociedade que permitem.

Mas a geração autista vê o mundo e tem sobre ele uma opinião muito pessoal — e muito mais forte do que supomos.

A geração autista vota. A geração autista vai trabalhar. A geração autista dentro de 10 anos começa a chegar à direcção. A sociedade será o que a geração autista for capaz de fazer com o colossal sarilho que lhe vamos deixar como legado, e não o que nós imaginamos que gostaríamos que eles fizessem.

No dia em que a Presidência da República tiver Facebook, MySpace, Hi5, avatar, Flickr, YouTube, sem cometer o erro de contratar profissionais de publicidade e media para “tratar a comunicação” com os “canais emergentes”, o PR será respeitado pelos jovens e a sua mensagem passará. De caminho, meto cunha para os seus discursos em RSS e já agora, senhor Presidente, se pudesse dar uma palavrinha lá na Assembleia da República, RSS pelo menos, bom mesmo era uma APIzita para aceder às sessões e a “sociedade civil” fazia aquilo que o site da AR é hoje incapaz de fazer: levar a política ao cidadão (de todas as idades).

Ou não é esse o objectivo?