Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de setembro de 2009

Legislativas 2009: 6 vitoriosos e 2 derrotados

As contas simples das eleições legislativas são fáceis. Deixo as contas complexas para outra ocasião. Ontem tivemos 6 vitoriosos e 2 derrotados. Não é surpresa que todos os partidos se proclamem vencedores. Na verdade, todos ganharam alguma coisa. Incluindo o grande derrotado de ontem (que só não ganha juízo). Balanço rápido.

Vitoriosos

José Sócrates. Premiado nas urnas pelo esforço governativo na mais dura legislatura de que tenho memória, o Primeiro Ministro saiu das eleições triplamente vencedor. O fim da maioria absoluta e a perda de votos — um verdadeiro bodo aos pobres dos outros partidos — é o sinal do imenso desgaste do período muito conturbado, quer ao nível da governação, com a crise financeira mundial, quer ao nível da política local, com adversários difíceis de identificar numa oposição em permanente mudança.

Sócrates é triplamente vencedor.

Triunfou sobre a cortina difamatória que constituiu o grosso dos ataques da oposição irresponsável, escorada numa imprensa cada vez mais fraca e dependente, que acentuou a confusão de papéis entre escrutinadora e pau mandado.

Venceu o combate eleitoral propriamente dito, sendo o rosto do partido mais votado, numas eleições (ainda mais) fortemente personalizadas (que o costume). Partia atrás, tendo em conta as derrotas nas presidenciais e europeias, e o empate técnico das sondagens. Chegou muito à frente.

Ganhou porque as suas políticas, regra geral, ganharam um voto de confiança claro por parte do eleitorado.

Partido Socialista. Aguentou, coeso e inteligente. Mesmo a crítica habitual (que eu próprio sbscrevo) de deixar assentar tudo na figura do secretário-geral cai pela base. O partido soube não confundir divergências de ideias e até de estilo com projectos de poder pessoal. Veja-se o comportamento das suas principais figuras, dos Soares a António Costa e António José Seguro.

Paulo Portas. O segundo vencedor da noite. No seu regresso à política activa, Portas deixou na gaveta o radicalismo discursivo da pior direita conservadora. Sobraram uns tiques que também podia engavetar — mas apresentou-se moderno, capaz, e sobretudo apostando na oposição pelas ideias e soluções, e não no ataque ao osso. Essa forma de fazer oposição, onde teve boas ajudas de Nuno Melo e Teresa Caeiro (mais mediáticos), Diogo Feio e Pedro Mota Soares (menos mediáticos), está de acordo com o que o público espera de uma direita inequivocamente democrática. O eleitorado aprovou os métodos de Paulo Portas e do CDS-PP ao longo não só da campanha eleitoral, como também da legislatura.

Bloco de Esquerda. O Bloco, mais que o seu coordenador, está entre os vencedores da noite. A subida de votos e mandatos é extraordinária.

PCP/PEV. Crónica derrotada do século passado, a coligação de esquerda confirmou ontem a conversão desse ciclo histórico de afundamento. Com mais 10.000 votos, mais 3 décimas na percentagem nacional e sobretudo mais um deputado, Jerónimo de Sousa pode sorrir abertamente. PCP e Verdes entraram no século abaixo dos 7%, dos 400.000 votos e com 12 deputados. Estão a recuperar. Só não vê quem prefere ignorar.

Garcia Pereira. O sexto partido mais votado obteve um resultado não apenas histórico — é a segunda vez que ultrapassa os 50.000 votos, a primeira foi… há 30 anos — como recompensador: entrou para o “clube” dos partidos com apoio financeiro do Estado. Muito mais que reconhecimento da importância dos pequenos partidos em geral, ou do PCTP/MRPP em particular, esta votação foi um (justo) prémio para um homem. Garcia Pereira.

Perdedores

PSD. Quatro líderes depois, o PSD continua em descontrolo. A direcção presidida por Manuela Ferreira Leite ganhou uns pós percentuais, 10.000 votos e 3 deputados, em relação a 2005. É a segunda pior prestação do partido.

Estes ganhos de migalha são esmagados pelas perdas.

Este PSD perdeu a aposta na campanha ad hominem (mas quem terá inspirado semelhante “estratégia”?).

Este PSD desbaratou a confiança que Paulo Rangel soubera agregar em Junho, nas Europeias.

Este PSD perdeu (no seu terreno eleitoral) por nunca ter sido capaz de se afirmar na oposição.

Este PSD perdeu o confronto com o adversário directo para o Governo, sendo incapaz de projectar uma imagem de credibilidade e seriedade que convencessem o eleitorado de que eram, como afirmavam, melhores e mais verdadeiros.

Este PSD perdeu a campanha eleitoral, para a qual partiu lado a lado, nas sondagens, com o PS.

Este PSD perdeu crédito no eleitorado do centro-direita, território oncde era rei, senhor e soberano. Esta perda é tanto mais grave (para o PSD) quanto representa o triunfo de um dos seus ódios de estimação: Paulo Portas. O segundo homem mais contente de Portugal, hoje.

MEP. Onde há expectativa, há lugar à desilusão. O MEP criou expectativa no núcleo das pessoas que gostavam de uma lufada de ar fresco no espectro partidário. Ainda não foi desta que tal sucedeu — o que nos deve levar a desconfiar que é pouco provável que alguma vez suceda. Digo eu.

O MEP é o rosto dessa derrota na justa medida em que foi o partido que mais apostou em mudar o número de partidos com representação parlamentar. Os outros micro-partidos não pediam tanto.

De alguma forma torci pela eleição de um deputado do MEP. Talvez por isso dê agora destaque a um assunto que a imensa maioria nem sequer referirá. A coragem merece coragem de volta. Lá volto à minha tese de que mais vale investir na reforma dos partidos… dentro deles. Os resultados de ontem, no geral e não apenas neste “castigo” do MEP, indicam mudança na socialização partidária. O CDS mudou para uma posição difícil de imaginar: nesta altura está à esquerda do próprio PSD, na medida em que é um partido mais aberto e actualizado. A base eleitoral do PCP mudou decididamente, ganhando votos em centros urbanos e a Norte.