Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

30 de abril de 2011

O candidato da direita a Primeiro Ministro

A evolução política dos últimos 20 anos trouxe a um momento histórico dramático uma direita com dúvidas profundas e lideranças trocadas: a sua grande massa eleitoral não tem uma referência comprovada, enquanto a figura de referência, a única constante à direita na última década, não tem massa eleitoral.

Noutras circunstâncias, o facto de Paulo Portas assumir uma candidatura a Primeiro Ministro seria para mim um fait-divers com direito, estivesse eu bem disposto, a piadola ocasional.

Mas as atuais circunstâncias não são propriamente normais. Deixando de lado as irresponsabilidades políticas que nos trouxeram a estas dramáticas eleições, o momento em si é de extrema gravidade. Aliás, sublinhada por todas as figuras com algum tipo de peso senatorial que a nossa vida pública contém, e mesmo por outras menos “pesadas”.

Achei que o Presidente da República fez A Coisa Certa no dia 25 de Abril chamando para o seu lado os anteriores presidentes. Foi Um Momento Daqueles, ver Cavaco, Soares, Sampaio e Eanes juntos pela mesma causa, sendo que essa causa é esta ideia vaga a que eu chamo o meu país.

E, lendo a situação neste quadro, a assunção da candidatura a PM por Portas passa subitamente para outra dimensão. Que, estou certo, vai baralhar as contas eleitorais à direita — e particularmente fazer a vida negra ao PSD.

A vida eleitoral do PSD não está fácil.

Pedro Passos Coelho encabeça uma corrente demasiado minoritária, quiçá mesmo sem expressão estatisticamente relevante no próprio eleitorado do seu partido. Uma coisa é derrotar em combates internos os anciãos desorientados e os barões desatentos ou entretidos, outra coisa é cativar as suas próprias massas para uma disputa eleitoral.

A sua consistência ideológica de base — o neoliberalismo visando a supressão do Estado — é assustadora para a maior parte do seu próprio eleitorado. Por um lado. Por outro, entra em choque com as ideologias fundadoras do Partido Popular Democrata/Partido Social Democrata, alinhadas entre a social-democracia de centro-esquerda sá-carneirista (desde o fim do cavaquismo praticada exclusivamente pelo… Partido Socialista), o elitismo pragmático balsemista e o conservadorismo maleável.

Resumindo: dos muitos líderes que o PSD experimentou recentemente, Passos Coelho é aquele cuja inclinação ideológica mais radicalmente se afasta do DNA do partido. O que em si nada tem de mal: todos os organismos vivos — e um partido pretende-se um organismo vivo — devem evoluir, mudar, adaptar-se. A arte da sobrevivência está em acertar nas mudanças e nos momentos.

Depois, Passos cometeu um erro de principiante (foram mais, mas este é o que quero agora sublinhar). Uma vez líder, fechou o seu círculo de confiança em vez de o abrir. Acantonou o seu escasso exército dentro do partido, o que terá consequências funestas no futuro e está a provocar debilidades no presente. Sem pessoas que façam as pontes e amaciem os discursos, Passos fica extremamente dependente do sucesso de terceiros, nomeadamente dos estrategas e consultores de comunicação profissionais e do autêntico exército de colunistas de jornais e revistas e comentadores televisivos que têm vindo a substituir em funções a máquina partidária tradicional do PSD (outro erro, dada a importância histórica dessa máquina).

Entre mais explicações para esta incongruente incapacidade do PSD para atrair e consolidar o eleitorado — que, segundo o partido afirma e repete como um disco riscado, estará “farto” da governação — está a desconfiança com um líder que emite continuamente desconcertantes sinais de imaturidade. (E o seu estado-maior é igual.)

O passado de Pedro Passos Coelho resume-se a zero vírgula líder da JSD, tendo sido deputado curricular; a sua experiência executiva resume-se a uma vereação sem história na Câmara da Amadora. Ora, moldar a figura de um líder, construindo-a a partir do zero, não é tarefa nada difícil. Há sempre zelosos artistas capazes de títulos felizes. Mas uma figura moldada assim tem um problema. A pintura é suficiente para o primeiro olhar, mas não resiste ao segundo olhar.

E reside aí uma das grandes questões da atualidade: Passos Coelho resistirá ao segundo olhar do eleitorado flutuante?

O eleitorado flutuante do centro (que, dizem, decide as eleições) vota quer no PSD, quer no PS. Passos precisa dele. Através de uma campanha persistente e com o fortíssimo apoio de que dispõe na Comunicação Social privada (que é quase toda, hoje em dia), é capaz de convencer a parte dos flutuantes desgastada com o Governo.

Se a vida eleitoral do PSD se resumisse a essa frente, não seria mau. O pior é que de nada adianta conquistar 50.000 ou 60.000 votos no centro-esquerda se perder 15 ou 20.000 à direita.

E à direita está Paulo Portas — a antítese de Pedro Passos Coelho. Apesar da idade, é um veterano. Colocados lado a lado — como vai ser inevitável — Portas vai surgir como um guerreiro coberto de glórias e cicatrizes de incontáveis batalhas, ao lado de um menino do coro imberbe que assistiu ao padre na Amadora.

Ninguém se lembra de Passos Coelho como deputado na AR, mas ninguém esquece Paulo Portas na AR.

Passos é o neo-liberalismo de efeito imprevisível no status quo económico. Portas, o conhecido liberalismo da velha escolha, conservador.

Os debates televisivos entre os dois serão fundamentais.

Passos Coelho — em boa medida por causa do acantonamento interno — não terá um voto da direita à direita do PSD. E os votos que aspire ir buscar às franjas neo-liberais são uma incógnita: tanto na quantidade (a blogosfera tornou o neo-liberalismo numa moda, mas ainda não tivemos nenhuma certificação social ou eleitoral da representatividade dessa corrente) como na qualidade (os descomprometidos são altamente voláteis e tendem a agir em função dos benefícios diretos, como o PSD comprovou na constituição das suas listas).

Paulo Portas parte com a certeza de muitos votos à esquerda do CDS — há um PSD que não perdoa a Portas por causa de Cavaco, mas também há um PSD pragmático, que ultrapassa as querelas do século passado. E até tem a esperança nalguns votos dos flutuantes do centro: basta-lhe pigarrear, afivelar o tão bem treinado rosto de “situação da mais alta gravidade” e olhar de frente para as câmaras, enquanto os seus lembram discretamente os jornalistas na sala que ele tem experiência governamental e conhece os dossiês.

Passos Coelho tem tudo a provar. Paulo Portas já provou.

Passos Coelho não tem a máquina partidária do seu lado, Paulo Portas é o maestro de uma orquestra treinada e afinada.

É engraçado verificar como a evolução dos últimos 20 anos naqueles dois partidos trouxe a direita a um momento histórico dramático com dúvidas tão profundas. E lideranças trocadas: a sua grande massa eleitoral não tem uma referência comprovada, enquanto a figura de referência, a única constante à direita na última década, não tem massa eleitoral.

No dia 5 de Junho — histórico por razões pessoais — teremos várias respostas. Na realidade, os partidos são mais interessantes do que em geral se pensa. E não temos outros instrumentos para tratar da vida pública.