Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de agosto de 2008

O falhanço do capitalismo e o retorno da política

Para onde quer que eu olhe ultimamente, vejo sinais do regresso ao Estado. Não é só nas democracias sul americanas, como a Venezuela, onde os autóctones, como Chavez — que acaba de nacionalizar um banco –, se vão vingando do que os donos do dinheiro lhes fizeram com a cobertura político-militar dos Estados Unidos.

Não é só nos países BRIC, não por acaso todos eles dirigidos por pulsos firmes (e musculados em dois casos).

No próprio coração do sistema capitalista começam a despontar, claros para quem os queira ver, sinais de reforço do papel do Estado.

Quando a economia de planificação central soçobrou todos desataram a cantar hinos ao capitalismo e ao mercado. Mas sempre permaneceu claro para mim que era absurdo acreditar que os problemas das maiorias se resolveriam por redobrarmos a defesa dos interesses das ínfimas minorias — e o tempo encarregou-se de me dar razão: num sistema económico que se baseie na competição mais ou menos selvagem e sem regras, liberal, entre humanos, a riqueza tende a acumular-se nos mesmos ganhadores e a evolução resume-se a o número de perdedores aumentar na razão do número de novos ganhadores, se os antigos os deixarem despontar.

O facto de a Humanidade como um todo se ter deslocado para a frente ao longo da linha de saúde e de outros indicadores de evolução serve aos liberais para justificar tudo, secundarizando — entre outras coisas — o esmagamento das classes médias e médias baixas, empurradas para baixo, e o aumento do fosso entre os muito, muito ricos e os outros, numa gritante distorção do papel de cada classe na geração dessa mesma riqueza. As classes médias acostumaram-se a aceitar a desigualdade de um modo esquizofrénico: pensam que são ricas. Como os judeus da Alemanha de Hitler enfiados nos comboios, preferem acreditar que nada de mal lhes acontecerá no fim da viagem. Ainda não despertaram.

Nada tem de espantoso para mim que sejam os muito, muito ricos, os primeiros — entre os defensores do liberalismo e da “iniciativa privada”, bem entendido — a virem explicar os falhanços do capitalismo ao longo das últimas décadas.

Como Bill Gates faz numa peça da Time cuja leitura (ou audição) recomendo.

Capitalism has improved the lives of billions of people — something that’s easy to forget at a time of great economic uncertainty. But it has left out billions more. They have great needs, but they can’t express those needs in ways that matter to markets. So they are stuck in poverty, suffer from preventable diseases and never have a chance to make the most of their lives. Governments and nonprofit groups have an irreplaceable role in helping them, but it will take too long if they try to do it alone. It is mainly corporations that have the skills to make technological innovations work for the poor. To make the most of those skills, we need a more creative capitalism: an attempt to stretch the reach of market forces so that more companies can benefit from doing work that makes more people better off. We need new ways to bring far more people into the system — capitalism — that has done so much good in the world.

Gates assume-se como um capitalista com coração, que é uma moda recauchutada: faz lembrar as senhoras dos ricos da terra, que assistindo a caminho da igreja, e nas galerias desta, ao resultado das assimetrias na distribuição da riqueza gerada pelo trabalho, distribuiam esmolas mais ou menos generosas conforme a severidade da estação.

Mas isso em si não tem mal. O “capitalismo criativo” que Gates invoca será útil nesta fase do campeonato de tirar o mundo do buraco onde a América de Bush o meteu in the first place (embora Bush seja nada mais que a gota de água que faz transbordar o copo do falhanço da economia dirigida pela ganância, em vez da solidariedade).

A crise é tão grande, e ainda se vai replicar e multiplicar por tantos lados, que todas as ajudas nesta altura são bem vindas.

As do capitalismo criativo.

As das esmolas dos ricos do Norte aos pobres do Sul.

As da intervenção do Estado americano nos bancos e corporações que, dirigidas em função exclusiva do lucro financeiro, falharam.

As de Chavez, por louco que o homem nos pareça hoje.

As de Lula, que meteu o Brasil no trilho do futuro fazendo crescer as classes médias — apesar de ter a aprender com o vizinho índio a não deixar sair tanto dólar. (Não percam o artigo o Brasil que existe, o Brasil que poderia existir, de Pedro Dória).

Talvez assistamos a uma nova geração de políticos doers, depois da revoada de talkers que — basta olhar para o G8 — se deixou levar pelo canto da sereia liberal para se tornarem num bando de inúteis.