Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de abril de 2011

O PSD e os Nobres Passos para a desilusão geral

Se a escolha de Fernando Nobre é indício da “nova tendência” de um PSD mais “aberto” à “sociedade civil”, temo bem que Passos Coelho esteja — desastradamente ou não — a acentuar a descaracterização do seu partido, um processo discreto que corre paralelo ao dia a dia dramático e solene que é o estilo passista.

O PSD é um partido com três corpos — uma coincidência com o número das setinhas no seu símbolo. A lógica mandaria supor que, na recusa de Manuela Ferreira Leite para Lisboa, fosse Pedro Santana Lopes o nome seguinte. Foi presidente da Câmara, é popular na cidade, cumpriu com elevação a travessia do deserto após o Grande Equívoco, era um bom nome à direita (já se percebeu que a refrega entre os partidos da direita será o segundo ponto de interesse das eleições de 5 de Junho).

Passos Coelho arriscou muito ao não satisfazer nenhum dos três corpos do partido para investir numa incógnita que só por sorte trará algum benefício ao partido. (Muito há a dizer sobre isto, mas agora falta-me o tempo.)

Percebeu-se imediatamente nas redes sociais a desilusão das bases que um dia votaram contra “o sistema”, usando como lupa ampliadora do seu protesto o candidato “amador” Fernando Nobre — na verdade um reformado que ao mais que justo descanso preferiu a excitação da vida de mercenário, combatendo primeiro a guerra de Soares (e Cavaco, ó ironia) e aceitando agora ser tenente de Passos, que lhe acenou com o lugar de general comandante dos infiéis vencidos, os deputados.

Nos próximos dias veremos se há sinais — naturalmente, menos estrondosos que aqueles — de desilusão entre os membros proeminentes dos três corpos do PSD. Tal permitirá clarificar a leitura quer da atitude de MFL (que, quero crer, comporta motivos meramente pessoais), quer do ofício dominical de Marcelo Rebelo de Sousa, que foi tão fria quanto veladamente contra tudo o que a atual direção do PSD estabeleceu como linhas de força até Junho: a “culpa” não é de Sócrates mas de “todos nós” (o que surpreendeu e desorientou os spinners do partido, com ordens de continuar a malhar no ferro quente onde batem minimal-repetitivamente desde o episódio do canudo), o país precisa de forte consenso entre os dois maiores partidos (Relvas canta “só nós é que sabemos”),Belém vai ter um papel central na gestão da tríade governo-oposição-FMI/FEEF (a tutoria de Cavaco é o que a direção atual do PSD mais teme).

Mas a menos que os eleitores, Sócrates e Cavaco o salvem com a água benta do bloco central, Passos Coelho ameaça ficar na história como o líder que forçou a recomposição do centro-direita português. Seria um grande favor ao país, é certo, mas sou realista e mais depressa aposto na água benta. O PSD estica mas não rompe. E quanto mais estica e se descaracteriza, mais encolhe.