Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

1 de janeiro de 2009

O tarólogo

Em mais uma demonstração da sua coragem — <modo ironia> que alguns confundem, apressadamente, com cega soberba </modo ironia> –, Pacheco Pereira relembrou ao mundo que a sua argúcia política não é sacada de um baralho de vulgar Tarot. O baralho dele é de outro calibre.

As provas?

As cartas que lançou há um ano, nas previsões para 2008.

O que eu disse há um ano sobre 2008 foi que “vamos continuar a empobrecer tão certo como dois e dois serem quatro”. A aritmética continua a ser fiável, continuamos a empobrecer. Disse também que “o governo terá a tentação de dar mais do que pode e deve, á medida que se aproximam eleições.” O governo de José Sócrates continua a ser fiável no seu eleitoralismo.”

É efectivamente preciso ser um génio da bola de cristal para afirmar que “vamos continuar a empobrecer”. Todos os outros analistas, aliás, disseram o contrário: que 2008 ia interromper o ciclo de empobrecimento e íamos começar a enriquecer. Todos cegos. Todos menos ele, que previu com brilhantismo que “íamos continuar a empobrecer” e agora, muito aritmeticamente, quer cobrar-nos.

A aritmética continua a ser tão fiável como a lógica. A lógica que nos permite concluir pela diferença qualitativa entre as cartas do baralho de Pacheco Pereira e os outros Tarots. Admitindo que sejam de melhor papel, dizem o mesmo: recorrentes banalidades.

Ou não é uma carta de Tarot e, como tal, uma banalidade recorrente, a frase “o governo continua a ser fiável no seu eleitoralismo”? Isto é previsão de que um homem se gabe?

Depois há duas últimas previsões que estão na ordem do dia: “os partidos vão começar a arder por dentro” à medida que se aproximam eleições, e “vamos ter cada vez mais presidente”. Tivemos e ainda vamos ter mais. Não tenho aqui à mão as cartas do Tarot que foram lançadas no ano passado, mas peço meças“.

Duas cartadas do mais clássico que se podem encontrar em qualquer baralho de tarólogo da política, incluindo os baralhos da loja dos chineses aqui do bairro a 1,5 euro, com o qual eu próprio brinco volta e meia. Os partidos “ardem por dentro” (um raro momento de prosa poética no Abrupto) sempre que se aproximam eleições, e nem mesmo o facto de se aproximarem três seguidas se me afigura possível de, de alguma forma miraculosa, alterar esse comportamento ancestral e repetido como uma missa. Pelo contrário, aconselha-nos a lógica e até mesmo, quiçá, a intuição. E dizer “vamos ter cada vez mais presidente” não significa nada, mas fica sempre bem dizer como cumprimento. É uma carta agradável. Faça o presidente o que fizer, podemos sempre concluir, no final do ano, que “tivemos mais presidente”.

Como analista político, Pacheco Pereira hoje vale isto. Um conjunto de recorrentes banalidades apresentadas em papel com monograma.