Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

10 de outubro de 2010

Para que existe um partido político e o que é isso da falta de debate (ou: o peão)

Por estes dias, e porque privaram Manuel Maria Carrilho do ócio, o país analista ficou subitamente preocupado com a “falta de debate” no “seio” do Partido Socialista.

Sempre que o país analista que temos se preocupa subitamente com algo, eu desconfio. Quando acho que vale a pena — ou nos meus momentos de ócio, que também os tenho, ora ora — penso um pouco nisso.

Para que existe um partido político e o que é isso do debate político?

Importa diferenciar os objectivos. Há dois tipos de partidos políticos: os que querem o poder e se preparam para ele e os que não querem o poder porque assumem a coerência discursiva como um valor em si próprio.

Tratemos já desta sub-espécie. São em geral pequenos. Os micro partidos vivem muitas vezes da persistência de uma pessoa ou pequeno grupo de pessoas. Aproveitam toda e cada oportunidade fornecida pela vida pública — isto é: os momentos em que os holofotes e microfones se lembram deles — para marcarem a sua posição protestando contra aquilo que estiver inculcado no seu código genético protestar.

Às vezes, alguns destes micro-partidos conseguem ascender a pequenos partidos e eleger um número variável de deputados.

Há ainda casos de pequenos partidos históricos, sobras de momentos em que tiveram projeção e glória, fossem situacionistas fossem revolucionários, que se escoram num público de pequena dimensão, mas suficiente para manter o endosso.

No primeiro caso, o dos micro-partidos, o debate é sinónimo de conversa de café. Dada a dimensão do seu corpus, não há, sequer, duas ideias que possam contrariar-se. Em bom rigor, se existir uma ideia já está a época feita. Quem dera a Garcia Pereira e ao PCTP/MRPP que existisse debate interno! Nem que fosse em período eleitoral — fora deste, é mais fácil sair o totoloto aos micro-partidos do que alguém se interessar por debater ideias nos seus “seios”.

No terceiro caso o debate é sinónimo de acordo de cavalheiros realistas. A margem de manobra discursiva é estreita, tanto por razões históricas como pela exigência da clientela. Como, ainda, pelo encurralamento que os caracteriza. Aqui e ali, em narcísicos momentos que dependem da rotatividade dos seus dirigentes (isto é: nada tendo a ver com a realidade circundante), há alguma gritaria metodológica que raramente ultrapassa a dimensão do ego dos 2 ou 3 envolvidos.

Findo o momento os cavalheiros, realistas, negoceiam acordos, de preferência em salas longe das câmaras e ainda mais longe dos eleitores, sobre o que é mais importante: a sobrevivência dos seus magros aparelhos. Em especial no período entre eleições. Sem o privilégio de poderem viver sem a política, costumam distinguir-se pela capacidade de trabalho nos organismos para que são eleitos através do partido.

O segundo caso é totalmente diferente. Os micro-partidos em fase ascendente na mobilidade política caracterizam-se pelo debate. Vivem a debater e para debater. Debatem tudo, obsessivos: a história, a realidade, o futuro, cada medida, pacote, ação ou lei. Adoram o debate. De facto, adoram-no tanto que seriam incapazes de deixar de debater e passar à prática.

Já o caso dos partidos que querem o poder é completamente diferente. Existem para alcançar o poder. São estruturas com bastante complexidade estrutural e funcional, criadas para um único objectivo: levar o partido ao poder. Nada mais interessa senão levar o partido ao poder. Quando o conseguem, as estruturas são recompensadas. Se perdem o combate, as estruturas agitam-se e entram pela via da renovação, de forma a garantir maior eficácia na próxima ronda.

A “vida interna” deste tipo de partidos consiste em: mudar e olear a máquina para estar no máximo nas próximas eleições.

Nestas estruturas profissionalizadas e altamente testadas e afinadas o debate cumpre um papel essencial e bem delineado. O debate faz-se quando o partido perdeu. Debatem-se as pessoas, as estratégias, a comunicação e a eventual modulação histórica.

[ A modulação histórica é a margem de acção ideológica. Soares usou-a para "meter o socialismo na gaveta", como reza a História. Passos está a usá-la para derivar o PSD para o neo-conservadorismo que os financeiros tempos em que vivemos impõem aos partidos que lhes são mais fiéis. Uma deriva arriscada (ele tem coragem). ]

Faz parte do Manual De Boas Maneiras dos Partidos abrir o debate “ao exterior” e integrar o discurso dos independentes. O PS teve as suas Novas Fronteiras (eu, por exemplo, aproximei-me do partido sendo espectador delas) e tem os seus Estados Gerais. O PSD tenta o interesse da sociedade civil através de institutos independentes.

Este tipo de ações tem um propósito e um calendário. São lançadas com pompa, dinamizadas com circunstância e largadas quando se esgota o seu prazo de utilidade.

Nos partidos de poder o debate é, assim, usado para clarificar posições; ordenar as tribos interiores de forma lógica para que os seus eleitores as compreendam; incorporar os independentes que tenham interesse; e estruturar as linhas discursivas e de ação da fação vencedora, que vai em seguida abordar o eleitorado do país.

No caso de se vencerem a eleições, o debate dá lugar ao silêncio cúmplice do trabalho. Até ao próximo ciclo. É assim em todos os partidos de poder.

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Chegados aqui, podemos concluir que “lançar o debate” se traduz na realidade em iniciar o ciclo de mudança no poder interno. Não corresponde a uma legítima preocupação com a “ausência de debate” ou “anemia partidária”. Equivale a desenterrar o machado de guerra. Manuel Maria Carrilho acha que chegou o fim do ciclo e agiu em conformidade. Coloca em cheque a liderança de José Sócrates.

É evidente que nesta altura a bravata de Manuel Maria Carrilho interessará à dúzia de analistas pró-PSD ou críticos da governação, que vê nele mais um aríete para a demolição em curso do Primeiro Ministro. São esses analistas que nesta fase lhe conferirão importância, legitimando a bravata. Ele sabe disso, eles sabem disso, o partido sabe disso, os outros partidos sabem disso, José Sócrates sabe disso — só não sabe disso o “eleitor comum”.

Nesta fase o “eleitor comum” ainda está fora do lance, pelo que os “certos sectores da sociedade” de que fala Eduardo Dâmaso, director-adjunto do Correio da Manhã, terão uma repercussão maior que a sua representatividade, que é nula ou escassa.

Mas se querem mesmo abrir o “debate”, então convém perspectivarem desde já o momento em que o “eleitor comum” entra em cena. E o “eleitor comum” é o calcanhar de Aquiles de Manuel Maria Carrilho. O que o transforma no peão que abre o jogo. Convencido, como é inerente à condição de peão, que se tornará rainha.