Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

13 de outubro de 2020

Portugal tem menos oposição do que precisa e a culpa é, inteirinha, do PSD

O facto de a ultra direita mediática conseguir colocar no tabuleiro a ideia de que António Costa é um autocrático do piorio diz tudo sobre o que andam cá em Portugal os media a fazer e o poder de que dispõem, não obstante reservarem uma fatia dele para manter as redes sociais sob a pressão das culpas insidiosas.

Costa tem certamente defeitos e até um empedernido esquerdista e um descuidado centro esquerdista encontram dezenas de motivos para criticar este segundo Governo. Olhem: eu encontro, acho este orçamento para 2021 um documento esburacado e fraco, destinado a um insucesso arrasador.

Mas Costa é um negociador. É aliás aí que grassam algumas das suas fraquezas. Mas as contas fazem-se à globalidade e a soma final da sua arte negocial é francamente positiva. E não é de agora: é a sua marca na política portuguesa e europeia (nesta a direita não teve ninguém depois de Barroso de péssima memória e reputação).

Autocrático?

A mim quer-me parecer que anda ali muita saudade, muito fado. Como narrativa, tem o verbo curto e não entra no eleitorado do século XXI.

Esse é, de resto, o salvo conduto do PS (e um problema para o país): o PSD continua amarrado por estes poderezinhos, por estes egoínhos de trazer por jornal, e pelos velhos beneficiários do cavaquismo que ainda controlam as avenças, quem escreve e quem dirige os OCS, ainda mandam nos seus grupos económicos em vez de os dirigir.

Não se moderniza, não aceita a mudança, não articula um discurso que abarque as temáticas que ocupam o espaço público (fora do círculo fechado e salobro dos media portugueses) hoje e o vão dominar nas próximas décadas.

O país tem menos PSD do que devia, tem menos oposição do que precisa. E nada disso tem a ver com a inventona da autocracia de Costa, nada disso é assacável, sequer, a um PS enfraquecido e reduzido. A nulidade da direita portuguesa é para a conta, inteirinha, dela própria.

É o resultado da sua própria incompetência.

Queriam controlar para quem vão os 16.000 milhões? Estudassem. Trabalhassem.