Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de setembro de 2008

Quem com ferros mata

No dia em que Barack Obama ia ser aclamado como candidato democrata às eleições presidenciais americanas, John McCain fez publicar nas televisões um anúncio — pago do seu bolso — dirigido a Obama e no qual dizia mais ou menos isto: amanhã continuamos a nossa guerra, mas hoje, um dia histórico (duplo sentido para o aniversário do discurso de Martin Luther King), quero felicitá-lo pela sua conquista.

Nos EUA as eleições são renhidas e os truques, trapaças e buscas de escândalos alimentam as candidaturas. McCain ganhou pontos, mas mais que ganhar pontos deu um tom à campanha.

Foi mais que um golpe de publicidade, foi um sinal de respeito.

Retribuído.

Obama recusou o aparente brinde da filha da vice-presidente que é menor, solteira e está grávida. Um rebuçado que tem vindo a ser insistentemente embrulhado pelos media engajados, apesar de ser uma mensagem que nenhum político americano aprove actualmente e não tenha despertado nenhum interesse particular das “audiências”. Na sua resposta veemente e sentida, Obama esteve ao lado de McCain — esta é a verdade a reter do episódio.

Ora. A transposição do exemplo para a política nacional é inevitável.

Nas últimas eleições nos grandes partidos é avaliável o grau de sensatez de cada organização. José Sócrates ganhou o PS em condições de extraordinária competitividade, com 3 candidatos de luxo. No PS as lutas intestinas não foram propriamente poços de virtude, nem isso se espera, mas tiveram o mesmo tipo de tom e correcção que McCain Obama imprimiram à campanha em curso.

Já o PSD… justos céus, o que se passa nas hostes laranjas?

O PSD sempre foi um clima mais agreste (eu podia usar palavras piores) para os seus candidatos a líderes que o seu grande rival.

Mas este século tem-se superado a si próprio.

Desde Durão Barroso, que chegou ao poder em circunstâncias normais (Marcelo Rebelo de Sousa perdeu eleições), a escadaria para o poder tem estado, digamos, particularmente escorregadia.

Durão negou a sucessão a Manuela Ferreira Leite (ele lá sabia porquê).

Depois, Marques Mendes — um homem pacífico, educado e trabalhador, ideal para fazer de Fernando Nogueira II — foi apeado a meio do percurso pelos “índios” populistas que lhe fizeram a vida negra, forçando o partido a uma escolha destempada.

Passe o trocadilho, o poder popular era, como sempre foi e será, uma ilusão. O chefe da tribo vencedora acabou ele próprio vítima de um golpe à bomba que visava estilhaçar o exército popular e “restituir a credibilidade” à nação social-democrata — e, aproveite-se, a Linha à São Caetano. As bombas incendiaram e puniram Luis Filipe Menezes com a mesma justeza com que este apeara o seu antecessor, não fosse o ligeiro detalhe de esse não ter feito mal a ninguém.

Esta semana a líder — que a esta hora já deve lamentar ter-se deixado envolver nisto — ficou sozinha com o bombista arquitecto do atentado a Menezes. Marcelo Rebelo de Sousa retirou o seu cardeal apoio a Manuela Ferreira Leite.

José Pacheco Pereira não o fará. Tal como com Cavaco, take one, se apostou em Manuela, vai com Manuela até ao fim do filme — ainda que possa sair antes do genérico final se houver argumento para nova fita abrilhantada pela estrela do Norte.

Mas Marcelo Rebelo de Sousa deixou-lhe a batuta fervente nas mãos. Muito claramente, na televisão, delegou nele a responsabilidade da estratégia. O que levanta uma curiosa interrogação. Como a água e o azeite, o PSD profundo e Pacheco Pereira não se misturam, não têm nada a ver — nem querem; até que ponto poderá Manuela justificar a presença de um corpúsculo estranho.

Bem, eu tenho uma resposta para isto que passa por Cavaco, de quem Pacheco é uma vez mais homem de mão. Quanto vale o cavaquismo no PSD — é uma pergunta com resposta: 1/3. A questão por responder é: os outros 2/3 fazem o quê?

Marcelo sempre correu a maratona.

Manuela não tem culpa. Os outros peões ainda menos. Alguns deles, dizem-me, são bastante bons. O problema é que no tabuleiro faltam torres, cavalos e bispos.

Vejam a coisa pelo lado positivo. Pela primeira vez, vejo falar-se por aí na criação de um novo partido ao centro e ninguém desata a rir. Até já foram criados dois — mas não é desses que estou a falar. É de um que rasgue de vez o manto podre da social democracia à portuguesa, um termo incaracterístico que já não significa nada nem designa nenhuma corrente.