Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

25 de janeiro de 2012

Rescaldo da flash mob “traz uma moeda para o Cavaco” (Do que mais gostei? Das secretas)

O rescaldo do evento propriamente dito será feito noutro contexto. Segue-se um rescaldo rigorosamente pessoal da flash mob “traz uma moeda para o Cavaco”, de que fui um dos promotores, juntamente com o Arrastão e a jugular.

1. Do que mais gostei? Das secretas. Alguns agentes andaram sempre coladinhos a mim. Único reparo: dois deles foram pouco discretos.

A sério e sem ironia. É reconfortante saber que as polícias cumprem o seu dever. E há o dever de proteger a Presidência de República. Claro que o evento era de grau 9 na escala de Gandhi, pacifismo absoluto, mas ninguém pode controlar as cenas.

2. Não me incomodou a identificação pessoal feita pela polícia no final, depois do último projetor de imprensa se ter apagado, e quando me dirigia ao estacionamento para vir embora. Achei até alguma piada. E não cometi a rudeza de dizer ao agente que tinha menos trabalho se googlasse o meu nome. E ainda mais fácil, para a intelligence, googlar o meu nome acompanhado do nome do Presidente.

Como referiu José Vitor Malheiros, que passou por ali nesse preciso momento, é bom que se habituem a gente nova nestas coisas. Este ano vamos ter muito evento, muita manifestação pública, muito ajuntamento popular, organizados ad hoc, a partir do nada, ou do tudo que comunica e se auto-organiza usando as redes da Internet — o que se traduzirá em muito rosto novo, muito cidadão como eu, sem compromissos partidários nem sindicais.

Retifico: não é só “este ano”, é daqui em diante, como disse JVM.

3. Muitos jornalistas me perguntaram se a participação não estava abaixo das expetativas. Percebo-os. Mas se existia uma expetativa, foi criada pelos media, pelo que só eles saberiam a resposta. Não minha, nem dos outros promotores com quem falei sobre isso. Eu não tinha expetativa. Os mais de 500 que clicaram no botão “Vou” na página do Facebook, clicaram no botão “Vou” na página do Facebook (já trato desse assunto mais abaixo).

Por isso, foi genuína a minha resposta. Acho que a participação foi excelente e acima de tudo surpreendeu-me. Estiveram, talvez, 2/3 de pessoas já para cima dos 55/60, muitos reformados, e 1/3 de gente nova. Ou seja: arrisco deduzir que a maioria dos presentes não apareceu lá motivada pela página do Facebook ou por algum SMS dos promotores. Pelo que ouvi, muitos souberam pelos jornais da manhã.

4. Tenho acompanhado, de há anos, as apreciações e análises a este tipo de eventos ad hoc. Ontem ouvi um jornalista dizer, em direto, que era uma inovação. Não percebi exatamente qual era a inovação — admito que ainda não se tivesse organizado uma flash mob para uma ação tão específica como entregar no Palácio de Belém uma esmola simbolizando o descontentamento popular com mais uma aleivosia de Cavaco Silva — sempre Cavaco, o pior político do Regime, como escreveu Isabel Moreira — e os tratos de polé de duvidosa necessidade a que o Governo que apadrinhou tem sujeitado as pessoas. Mas não foi a primeira flash mob da política ou da sociedade portuguesa, longe disso.

As organizações de massas através das redes sociais obedecem a diferentes processos e requisitos, conduzindo a diferentes resultados consoante o palco. Há a tentação de generalizar, mas comparar a Primavera Árabe com protestos pontuais em regimes repressivos com flash mobs em democracias maduras não conduzirá a mais do que umas atoardas insignificantes sobre um ambiente tão complexo — e tão novo, tão em formação — como a sociedade reticular.

5. O que se me afigura concluir sobre isto é que a existência da sociedade reticular é um facto mensurável, no contexto, pelo seu efeito duplo na esfera mediática e na esfera social, que estão interligadas entre si, e cujo somatório influi na esfera política.

Dito mais simplesmente: o panorama mediático mudou com o surgimento das redes e a mudança está em curso, sendo de esperar o inesperado e de não tirar conclusões precipitadas.

A mudança opera-se em dois níveis distintos. Do nível da própria estrutura industrial dos media, economia e propósitos do jornalismo, vamos falando noutros contextos (tenho abordado ligeira e pontualmente tais assuntos no meu blog e no Twitter).

O enfoque aqui é no nível do relacionamento social dos media. Já McLuhan observou que as mudanças específicas nos modos de comunicação moldam a existência humana.

O relacionamento social dos media era simples e bem demarcado: as fontes de um lado, o público do outro, eles como intermediários. Numa sociedade reticular o relacionamento tornou-se elaborado: toda a gente emite para todo o lado e o papel principal do intermediário desaparece — ou, na melhor das hipóteses, é obrigado a uma violenta mutação.

Decorre da mudança que há novas forças capazes de mudar a agenda jornalística. Já não são só os opinion-makers na segunda linha, a blogosfera, a serem lidos nas Redações, às escondidas durante os primeiros anos e agora assumidamente. O Facebook faculta aos jornalistas acesso direto às pulsões da sociedade. A inevitável ignorância sobre a ferramenta de acesso e a escassez de utensílios para corrigir a observação e a medição de tais pulsões, bem como o desconhecimento das suas mecânicas, faz-nos a todos parecer que estamos na primeira classe a aprender as vogais. É normal, não há que ter vergonha. Nem receio.

Aos partidos, associações, sindicatos e algumas dezenas de entidades que cumprem a função de canais para expressar opiniões e vontades coletivas juntam-se agora vozes individuais e organismos de vida curta que congregam interessados e especialistas, profissionais e amadores, em torno de uma atividade, um projeto — uma potencial lei. São novas fontes de informação a levar em conta. Mais pressões para a indústria da comunicação.

Insiro, a propósito, esta frase feliz, a da Luis Paulo Rodrigues em artigo para a Briefing: “Na indústria da comunicação, esta cultura da convergência, que é eminentemente democrática, está a desinstalar jornais e outros meios tradicionais, porque está a derrubar velhos métodos de trabalho e de gestão, asssim como hábitos de consumo ultrapassados” (ler em Cultura de convergência).

6. Na comunicação tradicional trabalhamos para momentos específicos para passar as mensagens, janelas que se abrem por minutos, ou páginas finitas, no tempo e no espaço. Descontinuidades para as quais é necessário elaborar um guião necessariamente curto e que se esgota uma vez cumprida a função. Na comunicação em rede não há descontinuidades mas sim contínuos, espaços discursos em que personagens e autores podem compartilhar a narrativa.

A flash mob vertente deve ser interpretada como uma interseção entre os dois universos comunicacionais. Nasce dentro do universo reticular, tendo como ingrediente principal as reações de pessoas que se sentiram insultadas pelo Presidente da República. Materializa-se num instante geográfico e temporal com o objetivo de projetar a mensagem no outro universo comunicacional. Para tal alinhava um mensagem curta e simbólica usando a figura da ironia — as moedas para Cavaco –, de acordo com as regras desse universo.

Terminada a interseção, cumpre-se o destino. Está geneticamente determinado que o evento não tem sequência. Mas não estão determinados os seus efeitos, o seu alcance. Muito menos, a sua legitimação inesperada pelo próprio objeto: Cavaco Silva piorou as coisas repetindo o que dissera “ao fim de três dias de indignação e depois da primeira vaia a um presidente da história da democracia portuguesa, por acaso no primeiro aniversário da sua eleição“, como frisou Fernanda Câncio.

No universo comunicacional ponto a ponto, os media tradicionais, a repercussão mede-se em primeiro lugar pela tentativa de saber sobre próximas “ações” da “organização”. Por outras palavras: saber se estão previstos, planeados, mais discursos para imprimir em páginas para o dia seguinte, ou captar em momentos para ocupar os próximos noticiários com hora marcada.

Na sociedade em rede não há (esse nível de) planificação. O discurso irritante, porque hipócrita, de Cavaco Silva sobre as suas alegadas dificuldades não vai além de episódio passageiro da mais densa narrativa de desilusão com o país. Esta continua a ser elaborada em tempo real, em contínuo, sem o espartilho da hora marcada e do papel finito, acessível a todos em qualquer lugar e momento. Para ler, gostar, partilhar ou refletir — cada um decide no instante o que fazer, sabendo que a narrativa continua, não desaparece, não sai do ar. Só termina quando tiver de terminar.

7. Não é nova a questão da cidadania do jornalista. Fui educado no jornalismo num tempo em que jornalista bom era jornalista sem voz, rosto ou nome. Isso acontecia para proteção mútua: do jornalista e do leitor. Era a forma encontrada para dar garantias de qualidade no produto do jornalismo.

Como qualquer outra, essa forma não era eterna. Dez anos depois, jornalista bom era o jornalista com nome. Vinte anos depois, jornalista bom era o jornalista com opinião. Hoje a isenção não é percepcionada como um valor garantístico de qualidade, pelo contrário. E com razão, em meu entender, pois tornou-se fácil passar propaganda embalada de acordo com regras do jornalismo como “ouvir os dois lados” e carimbada com o selo, falso, da isenção.

Com a isenção e a equidistância em baixa, emergem outros valores. A transparência desempata com a ética no photo-finish. Os meus leitores pessoais — aqui como nas redes onde mais publico, o Twitter e o Facebook — conhecem as minhas convições e simpatias. A relação estabelece-se em cima desse conhecimento a partir de informação prestada rapidamente, sem equívocos nem rodeios. Quem julga o meu trabalho remunerado — a crónica diária sobre os tópicos da atualidade económica e financeira no Jornal de Negócios — confia na minha capacidade profissional e ética.

Tenho defendido e continuarei a defender a transparência como a melhor garantia de qualidade (ou da falta dela) no ambiente reticular. Se outras garantias surgirem, apreciá-las-ei.

Isto para chegar a um ponto, que é o ponto da cidadania. As mudanças em curso libertam, mesmo que só em parte, os jornalistas para o exercício dela. Os cidadãos, conscientes do poder (real ou imaginado) do jornalista, ou pelo menos do seu acesso a algumas antecâmaras do dito através da palavra impressa e expressa, vêem nele um aliado (ou um inimigo).

O debate dos limites da cidadania do jornalista no ambiente reticular e na sociedade imersa em media está por fazer e não vejo forma dele acontecer em Portugal. Enquanto isso, não vejo razões que não a consciência resultante da avaliação pessoal de cada situação para um jornalista fugir à cidadania.

Num mundo de precários, de relações contratuais esparsas e de desnorte coletivo quanto à modernização das regras que deverão balizar a profissão, é em primeiro lugar uma decisão individual. Difícil e que exige alguma coragem.

8. Para lá dos media, a sociedade reticular obriga ao repensar do exercício da política. Nomeadamente, é posta em causa a organização clássica da pirâmide democrática — associações -> militância partidária -> estruturas partidárias -> construção de caderno de encargos -> submissão do caderno ao eleitorado -> assunção do compromisso eleitoral triunfante e governação.

Outros fatores contribuiram para o curto-circuito dessa organização, mas foco-me na sociedade em rede.

Máquinas montadas e afinadas para eleger os representantes das maiorias em sociedades verticalizadas, os partidos funcionam deficientemente em sociedades reticulares.

Socorro-me de uma análise de Rogério Santos sobre Marshall McLuhan: “McLuhan insistiu que os media electrónicos retribalizaram a raça humana. Todos nós somos membros de uma só aldeia global. Os media electrónicos conduzem-nos a conhecer o que se passa no mundo de modo instantâneo. Os cidadãos do mundo voltam ao espaço acústico“.

Uma tribo onde todos estão à distância da voz não pode ser dirigida da mesma forma que uma tribo onde toda a comunicação é vertical e mediada. O “conselho” tem de acolher relatos e opiniões de membros ocasionais — o que modernamente se pode traduzir na necessária inclusão de independentes nos processos de conquista de poder e, por conseguinte, no seu acesso aos órgãos dirigentes. À ação.

Tal como existem, os partidos deixaram de fazer sentido. Não falo das causas e da ideologia, apenas da estrutura. A desilusão das pessoas com os partidos e “os políticos” não tem a ver com as causas e as ideologias, que abundam na sociedade reticular. Tem a ver com práticas e rigidez de processos.

A tendência de incorporação de independentes e outsiders custará aos aparelhistas mas tem vindo a crescer e o atual governo reflete-o. Arrisco vaticinar que o próximo só lá chegará com a intensificação da tendência: há hoje mais vozes úteis, mais espaços de diálogo, mais instrumentos de crowd listening, mais causas públicas para decidir e definir.

9. Não participei como promotor deste flash mob para testar o Facebook. Sei que as redes sociais são espaços novos, libertadores e em certa medida trazem um reforço do poder de intervenção dos cidadãos, individualmente ou em associação. Mas já não tinha qualquer ilusão sobre a “cidadania do clique”.

Estar à distância de um clique de manifestar desagrado a Cavaco Silva é bom, é útil, é uma novidade, é enriquecedor — mas é pouco. A cidadania ativa, de que vamos começando a ouvir falar, está muito para além da adesão, fácil, às causas no Facebook.

Não tenho ilusões, portanto não posso partilhá-las. A cidadania sempre deu trabalho e continuará a dar. O Facebook, o máximo que pode fazer por ela, é facilitar algum dele: ouvir, coligir, organizar, agitar. Um like numa causa, sendo mais do que a esmagadora maioria alguma vez dispôs, sendo um acrescento à cruzinha de quatro em quatro anos num boletim de voto, é um passo na direção da cidadania ativa, um passo com poder suficiente para mudar a política, mas não passa de um passo. Uma caminhada, que é o que a causa pública é, é feita de muitos passos.

As redes são um desafio à política na medida em que facilitam a cidadania ativa? São. E, na medida em que estimulam a cidadania ativa, são um desafio à sociedade. Isto é, a si, caro leitor. Mais liberdade implica mais responsabilidade.