Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de maio de 2008

Resumo da semana: o restaurante da Assembleia e o fumo em locais proibidos (post iconoclasta da semana)

Já que tenho uma reputação (verdadeira) de iconoclasta e o epíteto (falso) de provocador, dou aos meus queridos seguidores mais um bom motivo. Assuntos: Pinto da Costa foi jantar à Assembleia da República e José Sócrates desrepeitou um sinal de é proibido fumar.

O país político esta semana tremeu. Os blogues chiaram de indignação. Os jornais correram atrás dos foguetes, convencidos que continuam de que o foguetório “dos blogues” emana do seu leitorado (é um bocado ao contrário, mas pronto).

Porque o fresco Pedro Passos Coelho deu excelentes entrevistas e mostrou que o PSD cometerá um disparate dos antigos se o trocar por uma hesitante repetente que ainda crê que as camisolas ganham jogos?

Não. Esse assunto passou ao lado. Não interessa. Não tem relevância suficiente para a política, o país e a sociedade.

Porque o governo português e alguns empresários assinaram no estrangeiro dúzia e meia de relevantes acordos, uns de importância geo-estratégica, outros de relevo para a nossa anémica “iniciativa” privada?

Bah. Who cares about oil. O preço do barril é manifestamente um assunto secundário quando comparado com — só para dar um pequeno exemplo — o jantar para que o presidente do Futebol Clube do Porto foi convidado no restaurante da Assembleia da República.

Economia? Acordos de governo internacionais? Um candidato credível e preparado para o maior partido da oposição?

Bah. Ké ké iiissó meu!, isso da economia e dos acordos com uma das grandes nações do petróleo quando o primeiro ministro teve o desplante de puxar do cigarrinho dentro dum avião — vocês já imaginaram o crime de lesa-pátria, aquele grandecíssimo prevaricador desobedeceu à lei do tabaco???

Mas se o meu povo está feliz, eu fico feliz. Fico feliz por sabermos quais os factos marcantes da viagem de José Sócrates à Venezuela do polémico Hugo Chavez: o nosso primeiro fumou um cigarro ilegal, pediu desculpa, prometeu deixar de fumar e zurziu em quem o criticou por isso.

A viagem correu bem? Correu mal? Foi um êxito? Um insucesso? Nem sim nem não antes pelo contrário? Além do cigarro e do helicóptero com o dobro da lotação de jornalistas — DA-SE, ACONTECEU ALGUMA COISA? Tenho de ir ler as letrinhas pequeninas, é?

Se o bom povo português está feliz, eu fico feliz. Fico feliz com sabermos que o facto político da semana não é o completo banho de Passos Coelho à concorrência, passando primeiro o outro Pedro, que ficou a barafustar lá atrás, e batendo-se agora com o cromo mais custoso do PSD, mas sim a elevação à categoria de equivalente do hemiciclo, com direito à distinção de Solo Sagrado, do modesto restaurante da Assembleia da República — onde uma vez fui convidado do ainda deputado José Magalhães, que optou por almoçarmos ali pela mais simples das razões, que é a razão pela qual os deputados convidam quem lhes apetece para repastarem em sala acolhedora e boa amesendação sem grandes demoras: ele tinha pouco tempo, queria despachar-se e voltar rapidamente ao trabalho.

(A Chanfana de Poiares também lá foi jantar com um grupo de deputados — sem direito a notícia, infelizmente. Mas o blogueiro estava lá.)

Como é evidente, eu não acho boa onda convidar Pinto da Costa, ponto. Seja para o que for, ponto. Na minha lista de pessoas a convidar para um janar, ele está para lá da 6.500.000.000ª posição. Mais depressa jantava com o actual Papa, com quem, penso, seria capaz de ter uma conversa com algum interesse.

Mas o que eu acho ou deixo de achar é mais ou menos irrelevante para quem acha que, pelo contrário, o homem é boa companhia e ser visto na sua presença, mesmo nos tempos que correm, é bem.

Mas devo sobre isso tecer 2 considerações.

Uma, a de que admiro o gesto dos deputados. É em momentos complicados, como aquele que Pinto da Costa atravessa, que se vê quem está do nosso lado. Numa altura em que ficou difícil defender o homem — ou, dito de uma forma melhor, na altura em que se tornou fácil a qualquer anterior cobarde aproveitar agora a posição de fraqueza do homem para o zurzir — aquele punhado de seus simpatizantes quise ser solidário.

Posso discordar — discordo — e desconfio que alguns dos que lá estiveram também discordam, mas isso não me impede de reconhecer o gesto. Há gestos que se têm, ponto final.

Segunda consideração: considero a escolha do restaurante da Assembleia uma escolha menos feliz. Este tipo de gestos não dependem de um local, podia perfeitamente ter sido noutro sítio. Se a escolha foi propositada — emprestar um pouco do lastro daquelas paredes ao homem nesta altura difícil da sua defesa — é um erro, porque representa um perigo politicamente. Se a escolha foi puramente acidental, revela insensatez, que não é um bom traço para um colectivo de deputados.

Agora, desculpem lá: numa semana de Venezuela e PSD, o restaurante da Assembleia é que é, abram negritos e caixas altas, A Notícia?

Está bem. Se é disto que o Bom Povo Português gosta, a seguir mandamos entrar os palhaços alegres.