Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

8 de junho de 2010

Rui Tavares cria bolsas de estudo financiadas pelo seu ordenado de eurodeputado

Este é um guest-post da autoria de Marco Santos, publicado originalmente no seu blog, o Bitaites, sob o título O deputado que quer dar 1500 euros.

Actualização: Rui Tavares publicou há pouco no seu blog o texto onde apresenta a bolsa. “Há uns tempos tive uma ideia: tirar uma bolsa do meu bolso. Não o faço para dar a ninguém lições de política, redistribuição, caridade ou o raio: faço-o porque quando satisfazemos um capricho nos sentimos mais livres e porque este é o momento adequado.

Rui TavaresO eurodeputado português Rui Tavares vai lançar bolsas de estudo que cobrem várias áreas profissionais. As bolsas vão ser financiadas por ele: Tavares prescindirá de 1500 euros por mês, sensivelmente 1/4 do seu ordenado, para ajudar candidatos a bolsistas.

Quem estiver interessado em candidatar-se, deve pedir informações para este email: bolsas arroba ruitavares ponto net. O regulamento será publicado no blogue do eurodeputado até ao final deste mês.

Nos meses de Julho, Agosto e Setembro será feita a recolha das candidaturas. «Tenciono começar a dar as bolsas a partir de Outubro», revela Rui Tavares em conversa telefónica comigo.

As bolsas não terão limite de idade, critérios de nacionalidade ou restrições temáticas. A verba poderá corresponder a duas bolsas de 750 euros ou a uma de 1500, dependendo do interesse do projecto.

Quem vai avaliar os projectos é o próprio Rui Tavares, embora possa «mostrá-lo a pessoas que trabalham comigo, colegas no Parlamento, solicitar uma opinião no caso em que estiver inserido numa área que não domino».

Para limpar a iniciativa, Tavares ressalva que os candidatos a estas bolsas excluirão gente com quem tenha relações pessoais, funcionários do Parlamento Europeu, Parlamento português e do Bloco de Esquerda (BE), o partido que o elegeu. «Por lapso, as primeiras notícias afirmavam que os militantes do BE estariam excluídos, mas não é verdade, apenas os funcionários o estão», afirma.

1500 euros é muita massa, pelo que das acusações de demagogia barata deve estar safo. Os próximos tempos dir-nos-ão se o jovem eurodeputado (é irrelevante neste caso o partido a que pertence) não será mais uma vítima da forma como o português encara a classe política: por um lado, os políticos são chulos que não fazem nada; por outro, demagogos que só agem para caçar votos.

Eis o que o próprio Rui Tavares tem a dizer sobre o assunto.


«Demagogia? Estou-me nas tintas!»

Está preparado para as acusações de demagogia e o que tem a dizer aos que o acusam de ser uma decisão populista?

Rui Tavares – Não estou preocupado com isso. Já tinha a ideia de o fazer há muito tempo. Era uma promessa a mim próprio, uma espécie de capricho, quando a possibilidade de ser eleito para o Parlamento Europeu era ainda muito remota. Estou-me nas tintas se é vista como uma decisão demagógica ou populista. Tenho uma enorme satisfação pessoal em fazê-lo.

Também há quem o acuse de brincar à caridadezinha, como cantava o José Barata Moura.

R.T. – Não. A minha preocupação não é avaliar a pobreza dos candidatos, mas contribuir para que as pessoas concretizem os seus objectivos baseando-me na avaliação que for feita à qualidade dos seus projectos – alguns dos quais, estou certo disso, até eu gostaria de fazer. O que sei é que ficarei muito contente por os ver concretizados.

Existe outra acusação: o facto de eu ter divulgado esta iniciativa, não a ter mantido para mim. Acontece que a divulgação é necessária para que surjam bons projectos. É desejável que associações, instituições e ONG’s saibam. Gostaria que se tornasse um catalisador, levasse mais pessoas a envolver-se. Existiram outras iniciativas que só a mim me dizem respeito, mas neste caso achei que seria positivo divulgar.

Tenciona tornar a sua iniciativa num projecto mais abrangente, aberto a todos os que queiram aderir?

R.T. – Dou-lhe um exemplo: o jornal Público, onde escrevo uma crónica semanal, disponibilizou-se a receber na sua redacção um desses bolseiros, caso a área de estudo seja compatível. Seria óptimo que associações ou ONG’s seguissem este exemplo.

Durante quanto tempo manterá esta iniciativa?

R.T. – Até ao fim do meu mandato como eurodeputado.

Afirma que a verba poderá corresponder a duas bolsas de 750 euros ou a uma de 1500, dependendo do interesse do projecto. É você quem irá avaliar os projectos?

R. T. – Sim, a avaliação é pessoal. Posso mostrar os projectos a pessoas que trabalham comigo, colegas no Parlamento, solicitar uma opinião no caso em que estiver inserido numa área que não domino, mas a avaliação é feita por mim.

Já algum colega deputado o abordou dizendo «Agora é que me lixaste, abriste uma caixa de Pandora»?

R. T. – Não, ainda ninguém falou comigo. Os colegas do Bloco de Esquerda que sempre souberam desta iniciativa – Miguel Portas e Marisa Matias – apoiaram-me, acharam uma boa ideia. Por isso, a resposta é não.

De 1 a 10, numa escala de insanidade, que valor atribui à sua decisão?

R.T. (risos) – Bem, é uma insanidade bem intencionada, qualitativa. Prefiro não responder com números!

NOTA: Publicado originalmente no Bitaites sob o título O deputado que quer dar 1500 euros.