Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de janeiro de 2010

iPad: promessas de amanhãs que cantam (e porque estou cauteloso com elas)

O aparelho mais recente da marca Apple, o iPad, é um tanto desconcertante. Sobre ele, o seu lançamento e as suas envolvências, pediram-me um curto depoimento para o Diário Económico e escrevi para o Diário2 este guia (in)completo do iPad.

O que tenho para acrescentar hoje, depois de ter lido o enquadramento das fontes que mais reputo e de raciocinar sobre o iPad e o mercado dos computadores e aparelhos informáticos, é um pouco perturbador. É isto: o iPad promete efectivamente amanhãs que cantam à nossa relação com a informática. O iPad promete acabar com a experiência frustrante do interface que dominou, imperial e imperturbável, a relação de 99% dos humanos com 100% dos computadores ao longo dos últimos 30 anos. Refiro-me à metáfora do interface gráfico e da interacção com o rato, nas múltiplas variantes de “apontar e clicar” (conferir o ciclo histórico desde Palo Alto e além).

Promete acabar com a dependência do formato do ecran: ele continua rectangular, oh sim, mas temos a liberdade de girar esse rectângulo, rodá-lo com o nosso próprio movimento, de forma natural, o conteúdo, aquilo que está a ser mostrado, adapta-se à nossa posição em vez de sermos obrigados ao alinhamento com a posição dele.

Apesar do pecado original do fechamento (o iPad, como o iPhone, está vedado à programação livre, só aceitando software fabricado dentro dos limites impostos pela Apple), ou talvez por isso mesmo, o iPad promete liberdade para o utilizador. A liberdade de deixar de se preocupar com problemas como os vírus e a manutenção do computador, a liberdade da ausência de rato e teclado, a liberdade de “guiar” o automóvel sem precisar de saber puto sobre mudar o óleo ou trocar um pneu.

Neste sentido, o iPad promete amanhãs que soam a canções de embalar a qualquer utilizador de computadores moderno, que perdeu o medo aos aparelhos e banalizou a sua existência mas vive diariamente o drama dos mistérios do hardware, das birras do software e dos amuos do engenheiro de sistemas com formação para ligar e desligar o botão de power. O que o nosso utilizador quer — o que toda a gente quer, menos os hackers — é resultados com o mínimo de entropia possivel no processo de os obter. (O focus dos hackers é precisamente o processo.)

E isso, como sabe quem usa um iPhone, a Apple já dava. Com o iPad a Apple leva a entropia mínima de utilização a um novo patamar: ao patamar dos computadores pessoais.

Ou eu digo de outra maneira que não ofenda os puristas (sim: há puristas que acham, e quem sou eu para os desmentir, que o iPad não é um computador, por mais que Steve Jobs diga que é). O iPad reduz o dispêndio de energia e tempo ao serviço do aparelho propriamente dito, simplificando e humanizando a interacção com QCQEDOL (Qualquer Coisa Que Está Do Outro Lado).

Com o iPad a Apple promete amanhãs sorridentes às empresas que já marcavam presença no segmento dos aparelhos humanizados, que buscam interacções mais próximas da naturalidade gestual e comportamental. Os chamados “tablet PC”, que deixam cair o teclado e o rato que força os pulsos e os ombros, procurando formas de apanhar o gesto natural dos dedos, da mão, dos olhos. A Apple não inventou propriamente este mercado, mas tem nele uma acção preponderante tanto ao nível da inovação — o LED-Backlit IPS Display Multi Touch é a jóia daquela coroa — como, e em especial, enquanto locomotiva que arrasta o comboio das multidões e também das câmaras de televisão.

E eu, avisando já que sou dos que gostam do ecran preto, das letras tipo Matrix a escorrer-me pela tela, e de estudar por dentro a mecânica dos aparelhos e da net, aqui me confesso sem pudor: há anos que sonho com a interacção natural, como falar para a máquina (ditar-lhe o mail ou as instruções) e mexer nas metáforas directamente com os dedos e as mãos, sem aleijar o pulso, há anos que sonho em deitar-me de lado na cama a ler na máquina.

Ter um iPhone foi um passo importante na libertação das amarras do GUI e do rato. Olho para o video do iPad e parece-me um bom patamar de entendimento — e um tremendo alívio ao mesmo tempo. Olho para o lado e vejo olhos a relampejar, já enamorados daquela facilidade. Um dia, usaremos o poder imenso do microprocessor como quem usa uma camisa e sem fronteiras entre os dois mundos, o digital e o físico — como aqui se antevê. Enquanto lá não chegamos, aos wearables, o iPad é uma belíssima ideia que tornarei realidade assim que se justificar trocar aparelhagem informático-comunicacional e os astros se conjugarem no alinhamento da dispensa do euro.

O problema é sempre o mesmo dos amanhãs que cantam. Nem sempre entregam. Por culpa própria ou alheia — ou um mix de ambas. Não tanto para o bem da Apple, onde não tenho acções nem interesses, nem das outras empresas que se perfilam, mas a favor da libertação dos escravos da informática rígida, espero que este amanhã cante mesmo.