Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

20 de novembro de 2020

Sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Para hoje: uma leitura da sondagem da semana, ainda o jornalismo, este diário, o problema da Hungria, Polónia e PPE, que vale 1.800 milhões. Ah: e uma carrinha Ford Taunus!

Um diário longo: tive mais tempo ;)

É normal que os jornais, rádios e televisões destaquem que uma coligação entre o Chega e o PSD não seria sequer suficiente para superar o PS, se as eleições fossem agora. Continuam loucos com o Chega e raivosos com o Governo, nada de novo nas abordagens. Era necessário somar os deputados do CDS-PP e da IL para a direita ter mais votos que o PS.

Outras leituras da sondagem da Intercampus, cujos trabalhos decorreram em plena discussão do Orçamento de Estado para 2021:

Esta semana uma sequência de acontecimentos pareceu querer mostrar-me que é mais difícil o jornalismo sair de mim que eu sair do jornalismo 😇. Além de uma enxurrada de novos assinantes do diário ter trazido um grande contingente de jornalistas, acabei a trocar correspondência com uma pessoa cuja Carteira Profissional tem o número de um único dígito e outra pessoa cujo número de CP teria 4 dígitos e andaria acima dos 7.000 — os mais recentes depois da última limpeza. Histórias radicalmente diferentes. Acertavas se eu te perguntasse qual das histórias é de desalento e qual é de felicidade.

Isto fez-me pensar qual seria o meu número caso tivesse continuado a renovar. Fiz uma pesquisa rápida e não conclusiva. Temo que ainda não teria chegado aos 2 dígitos, mas já pouco faltaria.

O diário não tem um modelo fixado. Acho adequado relembrá-lo na semana em que mais cresceu. Não é uma newsletter e não tem um propósito jornalístico ou similar. Não quero com isto dizer que não siga uma ética que incorpora alguma coisa do código que segui em 30 anos a escrever para jornais. E é claro que tem tudo a ver com a reflexão sobre o dia a dia e o interesse público. Apenas deliberei desta vez um espaço de total liberdade.

Liberdade que é tanto temática como de modelo como de tecnologia: tenciono ir experimentando aplicar ideias que me ocorrem com frequência variável.

Orbán e Morawiecki: rambos nacionalistas aguentam o bluff mais tempo?

O Primeiro Ministro esloveno, Janez Janša, decidiu fazer coro com as críticas da Polónia e Hungria, mas não vetou com esses países o pacote de resposta à crise provocada pela pandemia.

A diferença não é insignificante. Janša é um aliado próximo do nacionalista húngaro Viktor Orbán e tem servido de seu eco nas instâncias europeias, nomeadamente na retórica anti-imigração. Sendo nacionalista, não quer que a UE meta o nariz nos tribunais dos países. Mas não quis ir mais longe no compromisso.

Nem ele, nem uma larga percentagem dos polacos. Uma ligeira maioria de 57% concorda com a decisão do seu governo de barrar a aprovação do pacote de 1.800 milhões de euros. O apoio ao PM Mateusz Morawiecki já foi maior. As ruas andaram a escaldar com protestantes, embora por razões diferentes (contra o endurecimento da lei do aborto).

A imprensa tem relevado os sinais pelo lado da ameaça à União Europeia e ao Estado de direito. Serão, até, sintomas de uma divisão a escalar dentro do maior grupo partidário, o Partido Popular Europeu, que agrupa os partidos de centro-direita (PSD e CDS fazem parte, mas não Chega nem Iniciativa Liberal).

Janša e Orbán integram o PPE. Não colheram apoio, mas também não se ouvem vozes contra. O PPE pode estar bloqueado, ou na expetativa de uma cisão. Em Abril alguns líderes pediram a Donald Tusk a expulsão de Orbán, mas não houve maioria para a decisão.

Num à parte: a agência russa Novsti está encantada com a oposição à regra do Estado de direito. Makes sense ;)

Noutro à parte: na Turquia, amarga Turquia, assiste-se de camarote às discussões sobre o primado do Estado de direito. ”Não é apenas a Turquia que está a debater o Estado de direito. Algo bastante extraordinário aconteceu durante as últimas negociações orçamentais entre os 27 países da UE. As últimas alterações estavam a ser introduzidas nos detalhes do orçamento na reunião do COREPER, quando tanto os embaixadores húngaros como os polacos vetaram todo o processo, criando uma grande crise no seio da UE.

Quem acha tudo isto um grande disparate (como eu, aliás) e uma tempestade num copo de água, destinada a terminar depressa, um bluff que não aguenta muito mais tempo, é George Soros. “Os regulamentos do Estado de direito foram adoptados. Caso não haja acordo sobre um novo orçamento, o antigo orçamento, que expira no final de 2020, é prorrogado anualmente. A Hungria e a Polónia não receberiam quaisquer pagamentos ao abrigo deste orçamento, porque os seus governos estão a violar o Estado de direito”. Ponto parágrafo. Segue-se na outra linha:

Da mesma forma, o fundo de recuperação, denominado Next Generation EU, poderia ser implementado através de um procedimento de cooperação reforçada, como propôs Guy Verhofstadt. Se a UE enveredasse por este caminho, o veto Orbán-Kaczyński poderia ser contornado. A questão é se a UE, com a chanceler alemã, Angela Merkel, talvez liderando o caminho, pode reunir a vontade política.”

(Nota explicativa: o ex-PM polaco Jarosław Kaczyński, de que falam Soros e outros, é considerado o verdadeiro impulsionador da política do governo neste assunto, sendo Morawiecki o mero executor.)

Soros chama cleptocrata a Orbán e pede ao fundo europeu anti-fraude que o investigue e ao seu amigo de falcatruas Janša. Não percas o artigo dele de onde retirei as citações acima: Europe must stand up to Hungary and Poland.

Sintetizando: a resposta da UE à dupla de rambos nacionalistas que mantém as extremas-direitas coladas às notícias é determinante para o seu futuro. Ora: é apenas mais um dia no escritório de Merkel e Macron.

Frase para o dia (e o fim de semana, e o resto do mês, e o resto do ano, e o próximo ano): “”A inversão do ónus da pobreza, tornando as vítimas em culpados do seu próprio destino, é uma marca identitária dos populismos de extrema-direita, que procuram em cada sociedade os pontos que julgam fracos para alimentar fraturas sociais que virem as classes médias contra os seus concidadãos.” Paulo Pedroso no DN.

Canseira: Barack Obama. Excitação: Kamala Harris.

Já me esquecia: hoje vimos uma carrinha Ford Taunus! A frente igual à da fotografia acima. Fui pesquisar: modelo à roda de 1966. O condutor era um homem aí da minha idade, ou seja, provavelmente herdou o carro. Aqui andava na sua luta. Gosto de carros antigos. Também em museu e exposição, mas gosto sobretudo quando os vejo a circular, quando são a normalidade no dia a dia de alguém.

Opiniões

Miguel Guedes escreve sobre Direita e PSD: A riqueza em Rabo de Peixe. JornalDeNotícias 👉

Luisa Schmidt discorre sobre Gonçalo Ribeiro Telles: Continuar Ribeiro Telles. Expresso 💲

Márcio Santos aborda finanças: O impacto económico e social da crise sanitária que vivemos. Público 👉

Manuel Carvalho escreve sobre Orçamento e Governo: O Orçamento de novo entre o rigor e o populismo. Público 👉

Susana Peralta escreve sobre tristezas: Dinheiro público mal gasto e pessoas sem dinheiro para o pão. Público 💲

Carlos Zorrinho escreve sobre desigualdades: Esta é a esquerda de que sou. ionline 👉

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