Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de dezembro de 2020

Quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Hoje: Yuval Noah Harari, o acordo ortográfico e Deb Haaland. Sem esquecer a nova visita cá de casa, candidata a residente ;)


1
Está para sair a versão em banda desenhada de Sapiens, o que é uma excelente notícia. O livro devia ser leitura obrigatória. Talvez assim, com bonecos, chegue a mais gente.

Sigo Yuval Noah Harari há algum tempo, desde o primeiro livro. Abriu-me horizontes sobre nós e a importância das narrativas (a narrativa é tudo o que há além da biologia e da física). Esta entrevista para um evento da Telefonica é leitura obrigatória para quem não o conheça. Vai por mim: se não conheces ou não estás familiarizado, este excerto é pouco, tira 50 minutos para ver e/ou escutar o homem. A negrito, uma frase essencial para perceber quão perigoso é o retrocesso para o tempo da fé, o caminho para o qual a civilização ocidental está a ser empurrada pelos trumps e venturas e fernandes da vida.

“Durante a COVID-19 estamos a ver nas instituições de muitos países que a confiança está a enfraquecer até níveis alarmantes. Esta é a consequência das estratégias adoptadas anos antes pelos políticos que procuraram deliberadamente minar a confiança nos meios de comunicação social, nas instituições académicas e nas autoridades. Percebemos agora como isto é perigoso, uma vez que a confiança é a força motriz do sistema. O nosso mundo baseia-se na confiança em estranhos. Fomos caçadores-colectores há 50.000 anos e vivíamos em grupos muito pequenos, por isso conhecíamos todos os outros à nossa volta. Desta forma, estávamos confiantes de que nos conhecíamos uns aos outros. No mundo moderno confiamos em instituições impessoais e trabalhamos com milhares de milhões de estranhos, por isso, se essa confiança desaparecer, o mundo inteiro entrará em colapso e toda a nossa civilização se desmoronará


2
O acordo ortográfico avançou estávamos em plena blogosfera. Aderi ao AO (que lastimável cacofonia! Deixa ficar, é humor) desde a primeira hora. Entendi o objetivo e concordei sobre a expetativa (lá está): dar aos livreiros portugueses uma oportunidade num mercado 20x maior.

O tempo provou-se tratar-se de um equívoco: a compra de livros tem tudo a ver com a cultura e quase nada com a língua. E já nem falo dos problemas do licenciamento dos “direitos” de “autor”.

Fui criticado, claro, e arquei com as críticas e defendi sempre o AO. E continuo a defender. Os argumentos contra esbarram no seu próprio princípio: a língua evolui, ponto final. Quase sempre de forma natural, mas também por interferência alheia, mais ou menos visível. Ou seja: não há purismo envolvido. Um AO por razões do negócio é uma interferência mais visível e igualmente legítima.

Claro que tenho a noção do grande problema, que só se resolverá dentro de uma geração: a confusão de sabores do português. Problema sobretudo para quem (ou quando) escreve. Ler é mais fácil, com o treino às tantas nem dás por ela, a menos que insistas em dar.

O que me desagradou não foi o AO: foi os outros países terem saltado fora do A. Foi a traição. Se não queres avançar com um acordo, deixa-lo claro na negociação. Deixar a noiva no altar é um péssimo comportamento.


3
No domingo contei-te uma nova experiência: uma gaivota que veio bater à nossa janela. Na altura achei que era insólito e não se repetiria. Vai para 16 anos que desfruto desta vistaça, nos últimos cinco ou seis assistimos a uma pequena invasão de gaivotas, como em muitos outros centros urbanos não muito distantes do mar, atraídas pela comida fácil e ambiente protegido.

E, percebo agora, um ambiente interessante. Ontem a gaivota repetiu a graça: chegou, poisou e bateu com o bico no vidro. A Ana deu-lhe dois pedacinhos de pão. Hoje a gaivota regressou. Claro. Já tem nome, que não revelo pois é um dado pessoal sensível ;) Mas não, não se chama Fernão Capelo :P Contentou-se com uma bolacha de água e sal raquítica e velha. Os nossos três felinos andam intrigados. Têm reações diferentes, contudo. Ah, mas sobre as diferenças da individualidades gatais falarei noutra ocasião. É um mundo!


4
A administração Biden está MESMO a esforçar-se para reconstruir os EUA a partir dos cacos deixados pelo Partido Republicano com o trumpismo. Deb Haaland fará história como a primeira Secretária de Gabinete norte-americana nativa, liderando o Departamento do Interior que supervisiona as relações do governo federal com 567 tribos reconhecidas a nível federal e 1,9 milhões de índios americanos e nativos do Alasca. Haaland supervisionará os arrendamentos de petróleo em milhões de acres de terras públicas, como o Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Árctico.



OPINIÕES

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