Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de janeiro de 2021

Terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Hoje: ainda o caso do procurador, a esperança de um bom ano para o jornalismo pois vêm aí novos projetos e o Facebook não presta (confessa: nunca esperaste ler escrita por mim uma frase com “bom” + jornalismo e “mau” + Facebook. Tem paciência… as coisas nem sempre são o que parecem 😎 ️)

Antes, uma errata: no diário de ontem situei a reeleição de Mário Soares em 1980 quando na realidade aconteceu em 1991. Percebia-se que havia um problema pois logo em seguida situei a reeleição de Ramalho Eanes no mesmo ano de 1980. O meu bloco notas tem a anotação boa; o meu teclado enganou-se 😁

Uma guitarrista para a tua semana, uma música para o teu dia: Marta Pereira da Costa — Terra. Que encanto, que maravilha.

Marta Pereira da Costa a tocar guitarra portuguesa.

1
Referi ontem o nível assustador de spin que cobre o caso do procurador José Guerra. Continuo sem esperanças de vir a conhecer a verdade mas devo adiantar que isso não me assusta: este não é um assunto que considere relevante e quanto mais leio mais reforço a convicção de que só tem uma leitura político-partidária e exclusivamente nacional, para desespero do CDS, de Paulo Rangel e dos comentaristas mais investidos.

Como escreveu António Cluny no ionline, o “gosto pela intriga palaciana e escandalosa parece, porém, continuar a sobrepor-se ao gosto pela indagação e procura rigorosas da verdade”. O mesmo magistrado lembra, agora no Público, num artigo fundamental para compreender o imbróglio, que ”o regulamento europeu que institui a Procuradoria Europeia não obriga os Estados a selecionar os seus candidatos nacionais por concurso interno”.

Já Luís Menezes Leitão, compreensivelmente, foca o pior da trapalhada no seu artigo de opinião no ionline: os dados falsos transmitidos pelo Governo.

Enfim, o que me surpreendeu foi a fraqueza amadora com que o assunto foi conduzido pelo PS, deixando o combate partidário todo aos spinners. Isto merecia um grau mais elevado, profissional, de RP. Expos o flanco do Governo sem nenhuma necessidade.


2
Pode ser que 2021 se torne num ano bom para o que ainda resta de jornalismo em Portugal. Conheceram-se hoje detalhes do novo órgão local que alguns já sabiam que vinha aí e se adivinhava que é da safra do duo saído do DN: Catarina Carvalho e Ferreira Fernandes são os fundadores de um novo projecto jornalístico a arrancar ainda no primeiro trimestre de 2021 que terá como foco a cidade de Lisboa.

O jornalismo local é visto como um dos territórios promissores para o futuro da atividade. E se há geografias com potencial, resta por provar que alguma área de Portugal o seja. Lisboa incluída. Catarina Carvalho volta a ter uma grande oportunidade, espero que aplique o conhecimento adquirido em 2020 junto do Reuters Institute com melhores resultados do que o espetanço na renovação do DN online quando passaram o papel a semanário. Além do conhecimento, tem duas vantagens suplementares de grande peso. A experiência acumulada no DN e — esta é um grande alívio e uma autêntica benesse — não tem (emp)lastros na Redação, pode contratar uma equipa de tenrinhos e moldá-los. Oxalá o faça.

Não fazendo ideia do que aí vem, nada mais posso adiantar senão um sentido “boa sorte!

Sei de outro projeto, bem mais interessante e de maior potencial. Interessante porque, ao contrário do projeto para Lisboa, que é um clássico “grupo empresarial de pequeno porte mas com uns trocos de sobra procura visibilidade nos media”, foge ao desenho empresarial dos OCS e nasce totalmente digital e unipessoal. De maior potencial porque, a partir deste ponto da Europa, se abalança a um mercado global. Não posso adiantar pormenores, nem poderei tão cedo. E antes que perguntes ou te ponhas a magicar, não, eu não tenho nada a ver com este projeto.

Contudo, idem: não fazendo ideia do que aí vem, nada mais posso adiantar senão um sentido “boa sorte, camarada!

(Se conheces mais projetos na calha, avisa-me!)


3
Acontece pegar num assunto que esteja a escaldar no Facebook, como foi o caso ontem das eleições presidenciais. Não foi de propósito. Procuro não seguir a via facilitista e muito raramente “pesco” naquelas águas: praticamente todo o material que analiso chega-me em newsletters ou resulta da recolha e processamento “inteligente” de noticiário de três países levada a cabo pelo Cecil (como designo o conjunto de software que programo para tarefas automáticas e de apoio; o Cecil é um ente digital independente e com autonomia crescente).

Republiquei hoje no Facebook precisamente o bloco do diário de ontem no qual comentei as sondagens. O objetivo é, como é lógico nesta fase de experimentações e crescimento do diário, interessar mais leitores. Claro que pode suceder as reações irem por um caminho totalmente diferente ;) As discussões focaram-se nos pormenores dos debates, pois claro, desviando-se das sondagens e da mensagem do meu texto.

O episódio é útil para reforçar a convicção de que o que se passa, não passa no Facebook. O Facebook é ótimo para várias coisas, atenção. Não vejo ali nenhuma lixeira nem o esgoto que os tavares e pachecos da vida passam o tempo a dizer que está lá. Eu gosto de seguir humor (não há melhor!), fotografia e um leque de pessoas qualificadas nas suas áreas, que leio com atenção quando é sobre as suas áreas que escrevem. Às vezes apanho algum documento muito bom, geralmente teses ou artigos científicos.

Agora, para as notícias, esquece. O Facebook não presta. A menos que tenhas construído ao longo do tempo uma lista de amig@s curta e específica nos teus assuntos, serás inundado com os links que os editores acham que têm maior potencial de linkbait — na prática acabas por desperdiçar o teu tempo com 9 links rigorosamente inúteis em cada 10. O Twitter é melhor, mas é extremamente cansativo, é custoso fabricar um filtro e mesmo assim o fator aditivo inutiliza o tempo disponível.

A verdade, pelo menos para mim, é esta: não há melhor que as newsletters, sejam as que filtram, as que explicam, ou mesmo as listas promocionais dos jornais.



LIVRO DO DIA

A Escravatura — Subsídios para a sua História, de Edmundo Correia Lopes. Edição fac-similada da primeira edição, de 1944, de uma obra pioneira em Portugal e uma das primeiras tentativas de análise da escravatura como processo histórico, constante e regular na sociedade nacional, imune a questões éticas. Uma pechincha (€5).



OPINIÕES

Diogo Martins sobre crise e BCE: O relatório de Wyplosz sobre a zona euro pós-pandemia: uma medida do viés do nosso debate económico. LadrõesDeBicicletas👉

Mariana Mortágua sobre O povo da Esquerda e as presidenciais. JornalDeNotícias 👉

Francisco Louçã sobre a campanha eleitoral: A selva promove o rufia e os juízes não ajudam. Expresso 🔒

Daniel Oliveira escreve Um agradecimento a Graça Freitas. Expresso 🔒

Fernanda Câncio sobre polícias e IGAI: Quem policia a polícia das polícias? DiárioDeNotícias 👉