Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

13 de janeiro de 2021

Quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Hoje: as medidinhas do confinamentozinho, o estrelato de Ventura, como combater o novo surto da direita radical, e o correio dos leitores.


1
A partir de amanhã vamos para um mês ou mesmo mês e meio de confinamento que se devia chamar de confinamentozinho. Reproduzo o quadro simples das medidas. Temo que sejam insuficientes. Não vejo a vantagem de poupar os alunos à dureza do confinamento. E sim, estou a par dos problemas e das questões levantadas. Ya, eu também sofro psicologicamente. E os que não podem evitar a angústia da exposição redobrada nos transportes públicos? Já as igrejas abertas não me incomodam nem um bocadinho (quer dizer: não por estas razões, eheh). Ninguém vai conviver pá ya manda vir outra rodada para uma igreja.

O que estou a ver: o recrudescimento do espírito de desenrasca tuga, com o maralhal a inventar escapatórias em larga escala.

O que adivinho: Costa ainda vai ter de apertar a tarracha, que estas medidinhas vão ser poucochinhas. E sofrer politicamente por andar a rendilhar. Rendilhar medidas é bom mas parece mal, desorienta as pessoas.


2
Anteontem falei da paixoneta dos media e dos jornalistas por André Ventura. É um jogo viciado à partida e que já se tornou circular: Ventura e as forças que o promovem compraram a atenção dos media, que reforçam a importância da figura ampliando-a no espaço público, que se interessa pelo fenómeno levando os jornalistas a terem de o seguir, provocando respostas dos outros atores políticos, que levam Ventura a aumentar a agenda e o gongorismo público, que tantaliza as audiências.

Os três shows televisivos abrilhantados por candidatos à Presidência que lideraram as audiências têm uma única figura em comum: André Ventura. Gostemos ou não, por todas as razões lógicas e ilógicas, boas e más, é ele o principal chamariz da atenção pública. A política vai no banco de trás e a democracia segue enfiada na bagageira. Por enquanto.


3
Ora, como se combate uma avalancha com esta força? Como se trava uma locomotiva alimentada por forças tão poderosas, muito mais poderosas e sobretudo muito melhor financiadas que as vítimas e alvos da direita radical, os partidos, as organizações políticas, as organizações de minorias, os sindicatos e os raros movimentos associativos dos milhões de trabalhadores sem vínculo nem direitos, invisíveis aos olhos dos Estados ou a que o Estados fecham os olhos?

Sou dos que pensam que a primeira linha de defesa é constituída pelos partidos da direita, pois são eles as primeiras vítimas. O desaparecimento do CDS e o emagrecimento eleitoral e de quadros do PSD são as primeiras consequências do avanço da extrema-direita renovada. Mas: e se esses partidos optarem por deixar correr o marfim, importando-se menos com as posições relativas e mais com o objetivo final — conquistar o poder? Esta ideia tem um atrativo suplementar que deixa a salivar 90% da direita dita civilizada e democrática: o ideário autocrático sufragado às claras constitui um veneno corrosivo capaz de ferir de morte a democracia, um sistema que a direita, ou a grande maioria dela, sempre considerou como um mal menor, uma carraça com a qual tinha de viver —pelo menos durante uns tempos.

Se o plano A é deixar a direita enfrentar o seu demónio em primeiro lugar, o centro, o centro esquerda e a esquerda têm de ir alinhavando um plano B. Que de resto pode correr em paralelo e em segundo plano.

Que plano pode ser este?

A esquerda deve ter a coragem de forjar amplas alianças com partidos e sectores da sociedade politicamente distantes para proteger o Estado de direito e impedir o estabelecimento de ditaduras ilegítimas”, escreve Steven Forti, professor associado de História Contemporânea na Universitat Autònoma de Barcelona e investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. Publicado ontem na ctxt, o artigo é leitura obrigatória. Listo apenas os nove subtítulos em que Forti agrupa as suas propostas:

1) para combater a extrema-direita, é necessário estudá-la
2) é um fenómeno global, estúpido! A resposta terá de ser global
3) nunca derrotaremos o monstro se não compreendermos as razões do seu avanço (a falência do sistema do ponto de vista dos perdedores do capitalismo, o fim do sonho do elevador social)
4) deve ser desenvolvida uma resposta multifacetada
5) temos de agir a diferentes níveis
6) a resposta das instituições e partidos democráticos
7) resposta dos meios de comunicação social
8) a resposta de baixo, dos cidadãos
9) a resposta à esquerda


4
Correio dos leitores.

Um dos pressupostos deste diário é a comunicação um-para-um. Tenho trocado dezenas de e-mails com os leitores. Contudo, senti que alguns assuntos terão interesse alargado e por isso ocasionalmente abordá-los-ei no corpo do diário — sem prejuízo dos diálogos.

A propósito do tema do surveillance capitalism, p.c.c. enviou duas boas sugestões de livros para a rubrica Livro da Semana. Já tinha passado os olhos por um, Weapons of Math Destruction, falta-me o outro. Colocá-los-ei em futuros diários.

Ainda não respondi a V.T., que me colocou a questão sobre se Marisa Matias e Ana Gomes deviam ou não ter debatido dentro do chiqueiro venturista. O que posso adiantar já: bem, elas não têm escapatória, não há forma de negar a participação nos programas elaborados pelas televisões. A responsabilidade do mau cheiro é destas.

L.G. enviou um artigo da CNN sobre a perda de empregos em dezembro nos EUA ter sido exclusiva das mulheres. Não abordei ainda por querer dar mais atenção.

O assunto da pandemia, confinamento e vacinas gera muita controvérsia, como sabemos. S.M. enviou-me um extenso e bem fundamentado email ao qual ainda só respondi parcelarmente ainda por total falta de tempo. A parcela respondida diz respeito à sinistralidade rodoviária. Também eu pensei, no início da pandemia, que ela diminuiria forçosamente e que o diferencial teria de ser levado em conta. Pois pensámos mal. O número diário não tem qualquer relevância estatística: normalmente morrem em média por dia em acidentes de viação 1,29 pessoas. Leste bem. Algum efeito poderão os acidentes ter nas urgências hospitalares, mas será ínfimo (não tenho granularidade para fazer contas certas, estimo que sejam 3 a 6 feridos graves por dia).

A.C. juntou-se ao grupo crescente que pergunta como pode retribuir o valor que recebe do meu diário. Já retribuiu ;) Por agora o meu encaixe é o gozo que tenho na produção do diário e o feedback que felizmente vou obtendo em quantidade e qualidade. No curto prazo tenciono ter uma forma fácil de endosso, um link, ou botão de partilha, ou parecido — se me ajudares a alargar a lista de subscritores, tal ajuda tem um grande valor para mim. Mais tarde se verá se experimento alguma retribuição ou não — mas em caso afirmativo, adianto desde já que não estou inclinado nem para assinaturas pagas nem para publicidade. Uma certeza: se esse marco estiver lá mais à frente na estrada, não se vê daqui, falta muito caminho.



OPINIÕES

Maria da Graça Carvalho sobre o pós-brexit: O Parlamento Europeu não será mero espectador do acordo do Brexit. DiárioDeNotícias 👉

José Gusmão escreve sobre A ferrovia em rede. Público 👉

Mário Tomé escreve sobre Lobo Xavier: Touradas na Circulatura do Quadrado. Esquerda 👉

José Fernandes e Fernandes escreve sobre vacinação: Dever de responsabilidade e obrigação ética. Público 👉