Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

18 de janeiro de 2021

Segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Hoje um diário gordo: a nova desordem nacional, a pior catástrofe desde o terramoto de 1755 e a pior crise de saúde pública de sempre. E, lá estou eu no massacre, o voto em mobilidade e a necessidade de literacia numérica como instrumento do jornalismo.

Frase do dia: “Os privados não têm tanta capacidade como se pensa, sobretudo em Lisboa…” Marcelo Rebelo de Sousa.

Amanhã: então e uma remodelaçãozinha do Governo, ó amigo, vale a pena?

Mas antes de lá irmos, uma mensagem de boas vindas a mais uma grande leva de assinantes, a maior de sempre: olá, bem vindas/os!


1
Se me segues há algum tempo sabes que sou crítico do modelo dos espetáculos televisivos vendidos como “debates” políticos. As designações já são despudoradas: o último é o “debate das rádios”. Ou seja: a mensagem deslocou-se dos candidatos para os meios. Muito mcluhanista, lá isso…

E por isso alegrei-me quando vi o lançamento desta ideia do Público: sete conversas improváveis de sete dos seus cronistas com os sete candidatos. O Público já tinha tido uma boa ideia: sete temas para os sete candidatos. Mas estas conversas têm um aliciante suplementar: o confronto com cronistas. Assim não são meras entrevistas como as faria, faz, um jornalista: há maior liberdade temática e uma informalidade que cria um clima que expõe os candidatos mas os deixa surpreender-nos, pois não têm de cumprir as poses e os tempos do audiovisual.

Enquanto escrevo, deleito-me com a primeira das conversas improváveis, entre José Pacheco Pereira e João Ferreira. Para mim, é um formato muito melhor, de longe melhor, até para expor o candidato (como função unipessoal, o candidato tem um peso maior que numas autárquicas ou legislativas, em que o essencial é a mensagem, a narrativa, não as pessoas), do que os shows de entrenimento dos “debates” televisivos.

Obrigado, Manuel Carvalho e rapaziada do Público. Se puderes, não percas.


2
As contas sairam furadas a tanta gente. O risco de abrandar no Natal seria compensado com um janeiro mais restrito, que inverteria a tendência. Só que não houve inversão: houve agravamento. E se a tendência de crescimento pós-Natal se mantiver (até este preciso instante nada indica o contrário), vamos ter a pior crise de saúde pública de sempre, e podemos atingir 20.000 casos novos e 200 mortes por dia.

Hoje foram 167 mortes, um novo máximo de óbitos em 24 horas relacionados com a covid-19, e 6.702 novos casos de infeção. O boletim da DGS indica que temos 5.165 pessoas internadas, mais 276 do que no domingo, das quais 664 em unidades de cuidados intensivos, ou seja, mais 17. O SNS não consegue recuperar desta bojarda. Não tem tempo.


3
Para o diário de ontem procurei palavras neutras para descrever um problema muito grave — que de resto considero estar no cerne do descontrolo da pandemia: a perda de autoridade pelas duas mais poderosas forças nacionais, a Presidência da República e o Governo. Inflamar o tom ou congelá-lo de nada serve: atingimos um ponto de não-retorno em que nem o Estado de Emergência é acatado e é com isto que temos de nos haver. É a nova desordem nacional (pun very much intended).

Se te apetecer atirar às jugulares de Marcelo e Costa, pára cinco segundos e pensa no que teriam conseguido outras duas pessoas naqueles cargos nestas circunstâncias.

Depois perde um minuto substituindo o par de nomes por outro, e por outro e por outro, quantos pares conseguires fabricar para uma lista razoável.

Pois é. Atira-te à vontade, se isso te compraz de alguma forma, o meu objetivo é mostrar que nada mudará. Não teria feito uma diferença substantiva porque o vírus não nos confrontou com a qualidade das nossas escolhas eleitorais. Confrontou-nos e confronta-nos e confrontar-nos-á durante algum tempo mais com as forças e fraquezas do nosso sistema social, com o raquitismo da nossa economia, com as malformações do nosso sistema de estímulos e recompensas a.k.a. sistema financeiro — e, last but not least, com a nossa própria natureza, próximo ponto.


4
A nossa capacidade de adaptação é a chave da nossa evolução — mas é também o nosso ponto fraco como espécie. É graças à adaptabilidade que 10 milhões de portugueses conseguem hoje conviver com 170 mortos por dia, depois de se terem quedado estarrecidos quando esse número era 10 vezes menor. O medo, que faz parte da nossa melhor equipagem de sobrevivência, tem um problema: desaparece por vários motivos, um dos quais o cansaço, mesmo que a ameaça aumenta. Funcionou para leões e outras ameaças rápidas, não funciona para vírus e outras ameaças lentas.

Acresce que o nosso cérebro foi treinado ao longo de 200.000 anos para lidar com números pequenos e de uma forma linear. O cidadão médio e mesmo cidadãos dos 10% do topo da pirâmide não compreendem a escala do valor do PIB português, não fazem a mais pequena diferença entre milhar de milhão e bilião e perdem-se nas contas acima dos 9 dígitos.

Esta iliteracia numérica não seria um problema se continuássemos no paradigma vertical de circulação de informação em que vivemos desde as árvores até à sociedade reticular. Mas no aquário mundial da informação instantânea é impossível navegar sem ela.

Tomemos como exemplo este domingo em que decorreu o voto antecipado em mobilidade. As filas pareciam gigantescas. As fotografias mostram filas imensas de enormes multidões. Os relatos invariavelmente deram conta dos casos de uma hora ou mais para votar. Alguns até vaticinaram que os números da abstenção seriam contrariados. A Grande Vitória Da Democracia, na alegria mal contida de, que eu escutasse, pelo menos um ministro e um autarca. A percepção geral, como sempre (mal) alimentada pelos media e em especial a televisão, foi de grandiosidade. Nas nossas timelines no Facebook até parecia que toda a gente tinha ido votar antecipadamente!

Na realidade estavam inscritos menos de 250.000 eleitores. Uma ínfima minoria. Nas legislativas de 2019 votaram 5 milhões (e a abstenção oficial foi 50%). No domingo votaram entre 4% e 6% do total de eleitores que vai votar nestas presidenciais — se conseguir.

Foi muito bom, foi um recorde, foi quase o quádruplo (cito de cabeça) dos inscritos para o voto em mobilidade noutras eleições. Mas continua a não passar de uma gota de água e per si não autoriza nenhuma extrapolação sobre a abstenção.

O jornalismo faz parte do problema. Não fez enquanto não chegámos à sociedade reticular pela simples razão de que a natureza do processo fazia com que não houvesse disponível outra informação que não a emitida pelo jornalismo. Se os diretos televisivos davam 5 em cada 6 pessoas como tendo necessitado de mais de uma hora para votar, essa era a notícia. A única notícia. Hoje temos mais notícias: sabemos, pelos relatos dos próprios e re-transmitidos pelos seus próximos, que muito mais pessoas despacharam o voto em 20 minutos ou menos.

Mas demorar 20 minutos para votar é normal, logo não é notícia. Portanto, seguindo a televisões, ficamos a reagir à anormalidade, não à realidade.

Sem termo de comparação nem alternativa, não sabíamos ou não dávamos por isto. E não era crítico: o grosso da informação circulava com alguma lentidão, era mediada forçosamente pelo tempo. No reticular, em que não há mediação, em que tudo se sabe em todo o lado instantaneamente, só escapamos se nos munirmos das literacias necessárias — a começar pela numérica.

Não é imprescindível que todos as adquiram; é fundamental que alguns as adquiram, e entre eles os pivots da distribuição da informação, os pontos nevrálgicos da rede, o que inclui os jornalistas. Com carácter de urgência.


5
Vamoláver: é wishful thinking pensar que o voto em mobilidade resolve a abstenção. E eu, mesmo ciente do que escrevi acima, estou curioso para ver os números finais. O recurso ao voto em mobilidade comprova, isso sim, que ele é uma modernização necessária a um sistema eleitoral carente de reformas. A simplificação com que desta vez pode ser realizado, forçada pela pandemia, levou à sua adoção numa escala nunca vista. Talvez no futuro venha a mexer no ponteiro da abstenção, mas é improvável que tal mexida seja significativa. Mas é um contributo bem vindo à democracia.



OPINIÕES

João Ramos de Almeida escreve sobre Neoliberais, aliás hoje liberais. LadrõesDeBicicletas 👉

João Garcia também acha que PS e PSD desertaram destas eleições: Presidenciais: o silêncio dos não inocentes. Expresso 👉

Assunção Cristas defende o trabalho à distância: Teletrabalho: pensar e regular. DiárioDeNotícias 👉

Cristóvão Norte escreve sobre regras e Governo: Com La Palice não vamos lá! ionline 👉

Ngozi Okonjo-Iweala escreve sobre vacinas e COVAX AMC: Globalizar a vacina contra a covid. DiárioDeNotícias 👉

Filomena Póvoas escreve sobre educação: A escolha da superficialidade. Público 👉

Isabel do Carmo escreve: Pobreza e desigualdade. Público 👉