Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de fevereiro de 2009

A ascensão da Twittosfera portuguesa ou o ataque dos humoristas e dos políticos…

imontwitter (Este é um guest post da autoria de Raul Pereira (*)

Durante as últimas semanas aconteceu o que já se estava a prever há algum tempo: o número de novos utilizadores portugueses no Twitter disparou. Não me lembro de ter clicado tantas vezes no botão “follow” como nas últimas semanas a não ser, claro, nos primeiros dias, quando iniciei a construção da minha rede.

É uma boa notícia: finalmente, eu e o @ruitavares deixaremos – num curto período de tempo, espero -, de ser os únicos historiadores portugueses presentes. Quero com isto dizer que poderei construir uma rede mais à minha imagem, com pessoas para lá da órbita das tecnologias e mais ligadas a áreas culturais, por exemplo. Podem agora aplicar o meu exemplo a cada um de vocês, de acordo com as preferências.

Como sempre, o @PauloQuerido toma as rédeas do assunto e abriu um funcional wiki onde poderemos inserir ou pesquisar as categorias profissionais mais próximas dos nossos interesses. Ainda não inseri lá historiadores porque, como já vimos, somos só dois. Se navegarem mais um pouco na útil ferramenta que é o TwitterPortugal, encontrarão outros dados interessantes e uma visão global da dimensão e acção dos tweeters (1) nacionais.

Ora, isto traz-nos de volta ao assunto inicial; foi precisamente o TwitterPortugal, dono das estatísticas, o primeiro a notar o rápido crescimento do número de portugueses inscritos no já famoso site de micro-publicação. Tentarei enumerar os principais factores deste súbito interesse, sem ter em conta a sua ordem de importância.

O primeiro deve-se, logicamente, às vantagens óbvias do Twitter enquanto meio de interacção por excelência. Cada vez mais pessoas se apercebem do seu enorme potencial, falam sobre isso, experimentam, e as coisas seguem o seu natural percurso.

O segundo factor é bastante interessante e tem ligação directa com o primeiro a uma maior escala. Prende-se com a reacção que os media e os jornalistas a nível internacional tiveram para com o serviço de micro-blogging. Em Portugal, temos vários jornalistas que desenvolvem um trabalho notável no Twitter, de que é exemplo meritório o que está a ser desenvolvido pela equipa da RTP, com as contas @rtppt e @rtpN ou, ainda, por @alexgamela, @danielcatalao ou @cvazmarques.

Estes jornalistas, à semelhança do que aconteceu inicialmente nos Estados Unidos, mencionam nas suas redacções, programas de televisão, rádios e blogues as potencialidades do Twitter como meio divulgador da notícia, onde a questão geográfica encolhe ainda mais. Isto ficou patente nos atentados em Mumbai e, ainda mais claramente, no acidente com o voo 1549 da US Airways no rio Hudson. Nessa noite, além das actualizações do Alexandre Gamela, que ficaram na memória, a RTP mostrou, em directo, uma fotografia conseguida através do Twitter. Pormenor: estações como a CNN ainda não o haviam feito. Também naturalmente, as pessoas interessam-se quando os media falam e… experimentam.

O terceiro deve-se à entrada em cena de figuras públicas, nomeadamente humoristas e políticos. Os humoristas tiveram entrada com direito a tapete vermelho. Em apenas poucos dias construíram redes de milhares de utilizadores, sendo os casos mais notáveis os de Nuno Markl (@havidaemmarkl) e Bruno Nogueira (@corpodormente), que ultrapassam já os dois mil seguidores. Não sendo de estranhar – se tivermos em conta a dimensão pública e as legiões de fãs -, em termos de redes sociais é absolutamente estrondoso este fulgurante sucesso, como se pode observar no gráfico abaixo. Outros exemplos há, como @BrunoAleixo, que têm também como garantido o sucesso na rede.

graf1

[Dados retirados do site Twittercounter]

Já os políticos constituíram não uma surpresa mas uma nova forma de utilizar o Twitter: um fórum de debate de ideias, troca de comentários e, curiosamente, uma interacção algo inédita entre elementos de diferentes partidos. Se isto não é contribuir para uma democracia mais saudável, vou ali dar uma volta e já venho. Há dias, também a @Presidência da República Portuguesa abriu a sua conta oficial. Todos aprenderam a lição de @BarackObama e da melhor maneira. Esperamos que mais se juntem aos debates em 140 caracteres nas próximas semanas, em ano de importantíssimas eleições.

Em quarto, não menos importante, e como já foi aqui falado, outro grande incentivo: a chegada de grandes nomes da blogosfera ou mesmo de contas oficiais de blogues, como o @arrastao, a @jugular ou o @31darmada. Os blogues são muito importantes, na medida em que possuem ligações directas às suas contas no Twitter nas suas páginas principais e geram tráfego nos dois sentidos. Os leitores podem usar o Twitter como leitor de feeds dos artigos, comunicar e debater com os mentores dos blogues e estes ganham em tráfego, e muito.

Por último, contribui para toda esta rápida euforia também, uma verdadeira interacção entre cidadãos e figuras públicas. O Twitter permite uma comunicação directa, sem intermediários, com as personalidades, coisa quase inatingível antes da ferramenta aparecer. É uma rede que permite um clima de seriedade e confiança nesta relação, logo torna-a muito mais apelativa. Antes do Twitter, a única forma que eu teria para contactar com o @ruitavares, seria conseguindo o email ou número de telefone por terceiros. Com o Twitter a ligação é directa e tenho a certeza que estou a comunicar com essa pessoa. Claro que há casos de apropriação de identidade – há dias ficou famoso o de @davidbowie -, ou ainda como o da @Presidencia, onde muito dificilmente teremos Cavaco Silva a escrever. Mas, mesmo assim, é mais um canal que se abre onde a troca de informação é recíproca, contínua e extremamente benéfica para ambas as partes.

Em próximos artigos falaremos nos programas utilizados e na discussão em torno dos termos da Twittosfera que deveremos adoptar para o português europeu ou se, dada a entrada em vigor do Acordo Ortográfico, não nos deveríamos aproximar das expressões em voga no Brasil.

Entretanto, enquanto escrevíamos este texto, tivemos a revelação: parece que tudo o que disse acima é mentira e a culpa do crescimento da comunidade portuguesa no Twitter é do Parlamento Global! E esta, hem?

Acrescentamos, por último, que é praticamente inútil qualquer texto sobre o Twitter. A informação muda por vezes no espaço de escassos minutos. Por exemplo, @davidfonseca, músico, chegou no dia 28 e já consegui para cima de mil “followers“. Tenho a certeza que se estivesse a escrever este texto daqui a poucos dias, o título facilmente poderia ser outro e teria de substituir os humoristas por músicos.

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(1) Este assunto da designação fica para um outro post a sair em breve.

Autor Raul Pereira é Historiador de Arte, blogger e um experiente utilizador do Twitter. Neste momento encontra-se a preparar um romance histórico que irá expor no blog Libro Primo e em vários Social Media.