Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

18 de abril de 2010

Ainda sobre os salários dos CEO: custos invisíveis

Há dias reflecti a propósito do salário de António Mexia (e outros CEO) e havia um pormenor que queria ter metido no texto mas escapou. Aqui vai.

Como disse, o salário de um CEO quase nada tem a ver com o seu desempenho particular, reflectindo sobretudo uma imagem de estatuto e de poder: imagem destinada ao interior da empresa ou grupo, ou imagem destinada ao mercado.

Acontece também o salário reflectir custos invisíveis. Qual é o custo para a minha empresa se este CEO for trabalhar para o meu concorrente direto? Avalio o que perco em competitividade, ou segredos industriais, ou metodologia de abordagem ao mercado cliente (ou aos produtores), o custo da transferência de imagem, e uma série de outras questões que, nada tendo a ver com o desempenho propriamente dito, os accionistas não podem dar-se ao luxo de ignorar. Essa avaliação pode facilmente fazer um salário anual disparar para o dobro ou o triplo, por razões que nunca se confessarão em público.

Devo acrescentar que estes custos invisíveis não são exclusivos dos CEO. Mesmo os quadros intermédios de uma empresa beneficiam — ainda que em escala geralmente mais modesta — do preço de um valor intrínseco que, sendo indiscutivelmente seu, não se associa à capacidade produtiva ou de trabalho (logo, ao desempenho) mas à informação (que é poder).

Estou a lembrar-me de exemplos de quadros de empresas públicas ou participadas e também de empresas privadas que, no impedimento de ganharem acima de uma tabela fixa, acumulam o cargo com consultorias e outras formas de remuneração indireta.

Sendo uma camuflagem, queiramos ou não, este tipo de remunerações que não contempla a produtividade (o que pode ser muito flagrante…) gera por vezes anti-corpos e incompreensões. Como pode um board explicar aos funcionários que o quadro X recebe mais tanto apenas como forma de não o deixar sair para a concorrência — ou abrir uma chafarica nova e passar a ser ele a concorrência?

Quanto mais acima numa hierarquia empresarial, mais frequentes serão estes casos em que ao valor produtivo de um funcionário se adiciona o seu valor informativo. Seja pela imagem (“então a empresa Zzz deixou sair fulano? Devem estar mal”), seja pelos contactos ou posicionamento (hoje chama-se networking).

Tudo isto me foi suscitado pelo caso Mexia. Não faço ideia quais destas explicações podem, ou devem, ser associadas ao caso. A mim parece-me um salário demasiado excessivo para este país nesta altura. Sei contudo que a EDP é uma empresa internacional, metade da sua facturação (ou do seu lucro, não recordo agora com precisão) vem dos mercados externos.

E sei que a EDP é uma das raras empresas de origem portuguesa (bem) posicionadas para abordar o mundo completamente diferente que vem aí nos próximos 10 anos. Um mundo com eventualmente menos decisão política e mais decisão económica. Um mundo com menos energia fóssil e mais energias das outras. Um mundo onde se deu uma transferência de poder dos intermediários para os destinatários. Uma economia que trucidará as classes médias como as conhecemos, incentivando o low cost e o brutal gain através da intermediação das tecnologias de informação de preço irrelevante e eficiência extrema.