Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de março de 2012

O desemprego, a greve geral, o auto-emprego e o descartar das responsabilidades das elites

A propósito de uma reação à greve geral:

estou de acordo que os sindicatos — e a CGTP terá aí um papel — devem estimular o auto-emprego e serem mais ativos na busca de soluções para os trabalhadores que diminuam a dependência do mercado de trabalho. O mercado de trabalho será cada vez pior. Olhemos para as estatísticas de emprego — não as de um trimestre ou um ano, mas para um período longo, de 40 ou 50 anos: a tendência está lá, bem patente. (Pistas: O fim do emprego como o conhecemos e o seu efeito na economia de mercado e Tecnológicas como o Facebook produzem riqueza concentrada, não criam empregos.)

Pickets protest unemployment policies in Scranton, March 15, 1964.

Re-criar as cooperativas, por exemplo. Estimular o surgimento de plataformas para o crowdsourcing e o crowdfunding, que são formatos emergentes, modernos e adequados à vida reticular, de enquadrar o trabalho e a produção.

Dito isto, adiante. É ilusão pensar que o auto-emprego resolve o assunto. Trata-se apenas de colocar nos ombros dos trabalhadores o ónus do desemprego e da situação calamitosa que estamos a viver.

Trata-se apenas de viciar o jogo usando os meios de comunicação de massas, com as elites — que refletem a doutrina do capital — a transferirem subrepticiamente a culpa para as massas — condenadas à libertação pelo trabalho.

Não está a sociedade portuguesa, nem nenhuma outra, preparada para o auto-emprego. Nenhuma das nossas instituições está preparada para o empreendedorismo. A começar pelas escolas e universidades, que foram trocando a missão de ensinar e preparar os indivíduos pela missão de produzir trabalhadores adequados às necessidades do mercado de trabalho: especializados, baratos e cordatos.

Dirigimos a sociedade para se tornar numa máquina de colocar mão-de-obra o mais qualificada e barata possível à disposição dos empregadores. Qualquer alteração a esta organização terá de vir do mesmo sítio: de cima.

É ilusão pensar que o auto-emprego é a varinha mágica que nos devolverá Os Benefícios Da Sociedade De Consumo. Qualquer transformação do calibre da necessária para substituir a atual organização produtiva por outra em que o auto-emprego possa resolver ou escamotear as deficiências que o novo paradigma económico expõe, demorará nunca menos de 1 geração, a contar da próxima.

E isto sem nenhum tipo de garantias: o postulado acima não leva em linha de conta o facto de a maioria das pessoas não ter as bases necessárias à auto-determinação, algo que só umas gerações de perseverante insistência na acumulação de riqueza, experiência e cultura podem fornecer às famílias.

Concluindo: a demagogia é muito bonita, fica bem no Facebook e até ganha eleições, mas não faz funcionar nem resolve.