Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

9 de março de 2010

Racionalidade, amén

A web tem quase 2.000.000.000 de pessoas e cresce rápida ainda. Tipo, ya, 2 mil milhões de pares de mãos que acedem a custo baixíssimo a “conteúdos”, notícias, informação, entretenimento.

Acedem para consultar e acedem para produzir e partilhar, alegres e contentes.

A publicidade online está a recuperar da crise financeira e volta ao crescimento optimista.

O preço da web (o acesso às páginas HTML, ‘tão a ver?) vai descer de praticamente irrelevante para desprezivelmente irrelevante, ahah.

Se o iPad vender 4 milhões de aparelhos em todo o mundo no primeiro ano, a Apple andará aos pulos de contente. Os analistas acham que talvez se vendam 10 milhões de leitores electrónicos em 2010.

10.000.000 é uma fracção de 2.000.000.000. Uma pequena fracção, para começo de conversa.

O iPad, mesmo auto-financiado pela Apple, custará 499 dólares, preço de entrada. O acesso aos conteúdos terá também um preço, a dividir entre a Apple (ou a Amazon, ou outra hi-tech com o torniquete e a caixa registadora) e o orgulhoso “content provider”.

A indústria dos media (do jornalismo ao entretém) falhou todas e cada uma das oportunidades abertas pelas mudanças de comportamento da Entidade Antes Conhecida Por Audiência, nascidas da evolução tecnológica.

Todas. land rush, 1.0, 2.0, mobile, t-o-d-a-s.

O espaço (ok: o mercado) foi ocupado pelas tecnológicas e telcos. Que prosperam exactamente no mesmo sítio em que os media definham.

Virar as costas a 2.000.000.000 que existem, vibram, e apostar num potencial de 10.000.000 que pode ou não vir existir, e existindo pode ou não vibrar, não é coisa dos mass media.

Os industriais dos media dizem acreditar que o iPad vai salvar os seus negócios, tirando-os do tumulto da “rede do lixo”.

Tenho a certeza absoluta que há racionalidade nessa declarada expectativa. Absoluta. Eu é que sou estúpido e não consigo descortinar. Que os accionistas que financiam tais crentes consigam — é o que lhes desejo. Tudo de bom, amén.

Em Portugal o panorama é ainda mais estranho. Grupos inteiros invisíveis nas redes sociais. Um único jornal no Kindle. Nenhuma publicação com aplicações móveis, iPhone ou outras. Competências que deviam ser próprias são entregues em outsourcings de estratégia duvidosa, se existente. Conhecimentos que deviam integrar o capital intelectual de uma Redacção são evitados como se a informática fosse a sida do jornalismo. Uma ideia copiada com seis meses sobre a publicação americana que demorou seis meses a atingir o nirvana do mainstream social, passa neste país por “original” e “inovação” — um ano depois do blog mais rasca já o ter feito. Em vez de revalorizado e reinvestido e estimulado aos novos saberes, o capital humano é dispensado, despedido, e o grosso do trabalho aviado por estagiários que acham o máximo meter “trainee” no currículo do LinkedIn e pelo lumpen copy-past enquanto aguarda uma encomenda de 3 dólares o artigo no Getafreelancer.

Sei que um dia descortinarei, tudo de bem para vocês, amén.


Se chegou aqui, leitor, permita-me sugerir o Manifesto Internet – Como o jornalismo funciona hoje. 17 constatações e pense e discuta, junte-se a quantos já o fazem em dezenas de países que traduziram o manifesto. Ou leia iPad: promessas de amanhãs que cantam (e porque estou cauteloso com elas), onde discorro um pouco sobre o leitor da Apple, que considero de tremendo potencial disruptivo.