Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de outubro de 2008

Acácio Barradas

Só há pouco soube da morte de Acácio Barradas. Todos os jornalistas têm um chefe de Redacção mítico nas suas vidas. O Acácio Barradas foi o meu. Risca. O Acácio Barradas é o meu. A morte aos 72 anos rouba-o à vida, que não à memória dos homens.

Conheci-o no Diário Popular na década de 80, era eu um jovem jornalista do 1º Grupo (na altura a carteira dividia-se em escalões que reflectiam os anos e a experiência). Ele reinava — um reinado que, descobri mais tarde, resultava de um exercício incrível de equilibrismo, numa Redacção onde trutas ávidas de poder e jarrões decorativos do jornalismo, como Baptista Bastos já era há 30 anos, faziam o que podiam para tramar o chefe. Havia um jornalista que estava de baixa psicológica permanente por causa do inferno que era, à epoca, a Redacção do Diário Popular. Mas com a sua equipa de vices — António Colaço, Paulo de Carvalho e Ângelo Granja, julgo que jó resta o meu amigo Paulo, conservado no frio do Norte europeu — lá fazia do Popular o diário vespertino de referência.

(Vespertino é um jornal que sai à tarde, depois de almoço.)

Mais tarde nessa década regressei ao Popular pela porta grande, para jornalista do nacional, depois chefe do desporto, depois semi-chefe, em regime de voluntariado, da economia, já a empresa que iria destruir o Popular rondava a Luz Soriano e o pessoal debandava. Foi aí que o conheci melhor. O temperamento (o Daniel Oliveira descreve na perfeição, aqui). A aparentemente inesgotável energia. O nervosismo sempre à flor da pele. A noção de justiça que conheci em muito pouca gente. Nunca o vi errar um julgamento, nunca o vi punir alguém que não merecesse, ou recompensar quem não tivesse trabalhado bem. Embora fosse pouco dado a salamaleques e floreados.

O Acácio era teatral. O Acácio tinha uma vida, ainda que reduzida nesses tempos em que fazer jornais ocupava o dia todo de um homem. O Acácio escrevia os recados e marcava os serviços à mão, gastando uma resma de papel de 2 em 2 dias. O Acácio já ia a meio dos seus quarentas quando teve uma dupla grande mudança na vida: passou para o outro lado da rua, para o Diário de Lisboa, e não podia recuar, como tinha feito no Popular, perante a “informatização”. O Acácio pediu-me apoio. Foi o “aluno” mais rápido que tive, tomou meia dúzia de notas — à mão — e lá foi.

Tive sempre respeito pelos camaradas que fizeram o meu jornalismo. Honro-os como posso. Com a memória deles. O Acácio Barradas está nessa galeria de figuras que atravessaram a década mais complicada de gerir, a todos os níveis, do entusiasmo humanista às causas, da política de trazer por Redacção às tentativas de controlo editorial, da louca aprendizagem, pelas classes médias emergentes, de um mundo até 1974 reservado às minúsculas, quase invisíveis elites intelectuais que se davam ao luxo de viajar no Estado Novo.

Vejo-os desaparecer com emoção mal disfarçada. Recuso-me fazer ligações entre tempos. O jornalismo hoje é o jornalismo hoje, as condições sociais, económicas e educacionais são absolutamente diferentes. Não há melhor nem pior no meu discurso. O lugar é para a memória de homens corajosos. O Acácio Barradas é recordado em regime de permanência na minha memória. Onde sempre esteve, mesmo depois de se reformar. Trocámos uns mails e às vezes tropeçávamos um num outro numa livraria. A sua memória continuará também nesses lugares que foram os nossos.