Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

18 de fevereiro de 2010

O jornalista programador

E pronto, como tinha antecipado há dias aqui, acabo de abrir uma nova publicação no meu endereço mais antigo. (Estou aliás a reciclar alguns domínios de Internet e a reduzir o seu número.)

The journalist programmer é uma publicação, ou blog, ou fio de conversa sobre rumos actuais e futuros do processo jornalístico, bem como dos trabalhos a que ele obriga os profissionais (e até alguns amadores) na transição de plataformas. A rede e o digital não mudam só a forma como as pessoas socializam e comunicam, nem destruiu apenas o negócio da música. As mudanças em curso são mais profundas.

Pessoalmente, trata-se também de um relançamento interior. O formato microblog é adequado a um tipo de divulgação, mas sinto a falta de escrever artigos com alguma elaboração. Não que pretenda deixar o Twitter, longe disso, mas passo a escrever livremente — isto é: por oposição a escrita profissional — sobre o que mais me estimula.

Passo a fazê-lo em inglês por uma razão simples. É em países de língua inglesa, nomeadamente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, que se começa a prestar atenção a estas mudanças, a pensar nelas e a agir no seu quadro. Jornalismo de dados, jornalismo de precisão, jornalismo hipertextual, jornalismo assistido por computador — eis expressões que em Portugal, como por toda a Europa continental, têm um longo e penoso caminho até chegarem ao léxico diário das Redacções. E eu nem quero esperar assim tanto, nem quero continuar a falar sozinho.

Há, ainda, uma segunda razão para a nova publicação, que nada tem a ver com a língua e a necessidade de um pretexto para diálogos menos tempo real, mais pausados. A convergência, o recentrar da atenção e o investimento no bordo profissional do jornalismo, depois da deriva amadora, bloguística, dos últimos anos. Ainda que sozinho e fora do ambiente das Redacções, que já conheceu melhores dias e do qual não tenho saudades, redescubro a minha profissão e os seus alicerces e contemplo activamente ( ;) ) o futuro.

Sinto o mesmo fogo de 1988 quando ao Diário Popular chegaram 2 computadores 286 e 1 386 e eu e o Fernando Soares os ligamos numa rede Novell e descobrimos o desktop publishing com um antepassado do PageMaker cujo nome não retive. A descoberta continua, há mais um ror de ferramentas para extrair (às vezes, extorquir) a informação que pode ser notícia depois de trabalhada, há mais uma quantidade incrível de formas de a embrulhar e levar ao consumidor, a própria relação com este (e acima com as fontes) está a tornar-se complexa, requesitando reforços, máquinas, agentes informacionais, rotinas, programas.

Não escolhi o dia para lançar o The journalist programmer. Fi-lo, de resto, em sobrcarga horária. Apenas achei indicado começar no mesmo dia em que a Google, o New York Times e o Washington Post tomaram uma decisão que marca — nem que seja simbolicamente como marco — esta mudança no processo jornalístico: Google open-sources the Living Stories format.

É claro que os meus espaços se cruzam, como neste post, como em eventuais artigos que o suscitem. Mas os rumos não se desviam. O Certamente continuará, vida dentro da vida, a ser área cúmplice do amor e palco de intimidades e de reflexões pessoais mais ou menos atentas ao que nos cerca, da política à economia à tecnologia, enquanto o The journalist programmer conterá matéria específica do que tenho feito ao longo das últimas três décadas: recolher, escolher, escrever e publicar.