Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de dezembro de 2009

Contra o acordo ortográfico, jarros de jactância

No Facebook pediram-me que comentasse um post contra o acordo ortográfico. Não foi grande ideia. Calculo que esperassem uma benção, saiu uma bala. Ele há dias.

A pergunta era: “querer obrigar 2 povos diferentes a expressarem-se da mesma maneira é… é… Alguém tem adjectivo para classificar o que isto é, meus senhores?!

Respondi. Não respondo a todas as solicitações por uma razão tão simples quanto lógica: a maior parte das vezes pedem-me opiniões sobre assuntos que me são triviais ou mesmo desconhecidos e eu, não tendo nada a acrescentar, fico calado que faço melhor figura.

Mas neste assunto do acordo ortográfico tenho opinião, tenho posição e até tenho um posto de guerrilheiro, basta conferir o que já escrevi sobre o assunto nos links no final deste artigo.

Pelo que respondi isto:

Sim. O adjectivo que procura é: racional.

É racional querer uma base de entendimento para as diferentes comunidades falantes de português.

É racional desde logo pelos aspectos práticos, isto é, económicos, da questão. Pense na edição de livros. Mas é racional por mais razões. A da aproximação de portugueses e brasileiros — ou, se preferir, da resistência ao afastamento. Isto é sobretudo importante no contexto da globalização cultural e política. E, a cru e sem rodriguinhos, é mais importante para Portugal do que para o Brasil.

Na minha modesta opinião, só um distraído profundo não percebe que no quadro da emergência do Brasil como potência económica e política é importante que Portugal reforce os laços. O acordo ortográfico é uma peça nesse reforço.

Racional é, ainda, a perspectiva da batalha das línguas neste século. O século XXI assistirá à subida das línguas ibéricas — o eixo ibero-americano está a ganhar importância crescente em termos tanto regionais (UE, América do Sul) como globais. Neste quadro, a existência de um acordo ortográfico é um instrumento de defesa do português. É racional cuidar da língua.

Há razões pessoais, também. Eu quero entender-me melhor com os brasileiros. Partilho com muitos brasileiros um número crescente de interesses, graças às redes sociais e à Internet. Presumo que o mesmo se passa com milhões de portugueses e brasileiros, entre outros nascidos a ouvir português. Um acordo para a ortografia é um passo para a melhoria desse entendimento. Chamem-me presunçoso.

Agora, digam-me lá: quais são os argumentos contra o acordo? As diferenças geo-culturais que implicarão, sempre, diferenças linguísticas? Ya ya: hoje em dia tenho mais dificuldade com alguns dos regionalismos portugueses do que com os brasileiros. E considero muito mais perniciosa para a “minha” língua a influência da “diferença beirã”, ao nível do sotaque e do próprio entendimento, que a influência da “diferença brasileira”.

O acordo ortográfico é apenas um acordo ortográfico, não é uma imposição ou obrigação, ao contrário do que parecem temer os resistentes — ou assim querem fazer crer. O acordo ortográfico não ameaça as diferenças na utilização da língua, mas é um instrumento para melhorar a comunicação entre culturas diferentes. A muitos níveis.

Já nem os peço válidos, apenas argumentos que ao menos façam sentido. Mas não oiço argumentos, apenas jactância.