Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de março de 2009

E agora, Manuela? Como "desvitalizar" o PS?

Penso ao contrário da “maioria” sobre o congresso do PS: passou-se ali de facto alguma coisa — e coisa importante.

Algumas coisas, plural.

O Partido Socialista deu o mote para o ano eleitoral. A estratégia dificilmente seria mais adequada, de tão realista. Por exemplo: vendo as sondagens com olhos de ver, sem o PSD como preconceito, é óbvio que a ameaça vem dos votos somados à esquerda pelos BE e PCP. Seria — desculpem a crueza — estúpido concentrar a artilharia pesada no adversário à direita que, histórico embora, erra pelo deserto do centro como um cadáver ambulante.

congressops Não. Bazucas para Louçã — que de imediato agradeceu a lisonja, corado e sorridente, e suspirou de alívio pela “resolução” do seu problema a prazo, o confronto interno com as vozes que lhe iriam pedir uma desconfortável aproximação ao governo. Foi a melhor prenda em dia de aniversário do Bloco, a promoção do seu líder ao primeiro lugar na lista dos inimigos a abater.

Assestar as armas grossas ao Bloco deixou o PSD a ranger os dentes. Simplesmente, não há palco para si. Nem nos temas das campanhas, nem sequer no coração do adversário. É uma amante velha, jogada para o lado. Resta-lhe o coro dos cronistas publicados e fiéis — isto se a imprensa não der um grande estoiro entretanto.

Segundo tiro no porta-aviões: Vital Moreira.

Com Vital o bordo esquerdo do PS troca o susurro pelo silêncio. Até Junho, garantidamente, mas com efeito prolongável por mais seis meses, o efeito-Vital serenerá mesmo o eleitorado “de esquerda” do PS que não simpatiza por ai além com o “centrista” Sócrates. Tem o seu pretexto para por 3 vezes meter a cruzinha à frente do símbolo rosa. Desde que nos media não aumente o nível da escandaleira, por ali (pela esquerda) este PS safa-se. Uma pitada de energia e a maioria absoluta ficará a descoberto desse lado.

Vital é um (inesperado) trunfo pesado. Porque, pontualmente embora, colhe na frente de batalha com a direita. Não pelo lado do voto — não arrancará nenhum dali, mas esse é um trabalho para o secretário-geral, não para ele. Mas pelo lado da amedrontação, do jogo, da fasquia.

Pois.

Quem, justos céus, vai Manuela inventar para cabeça de lista? Tem de ser alguém com uma imagem pública de — ups, sorry! — credibilidade pelo menos à altura da imagem de Vital, o constitucionalista que mesmo os que são contra respeitam.

Ora, na colecção de cromos mediáticos o PSD só tem 2 figuras de primeira estampa. Passos Coelho e — tcharam! — Marcelo, como superiormente lembrou Vasco Campilho em Lançar o lançador, e cito: “ninguém poderá contestar que Portugal ficaria soberbamente representado na Europa por alguém com a craveira intelectual de Marcelo Rebelo de Sousa. E na perspectiva mais que provável de uma renovação da maioria PPE, Marcelo poderia seguramente aspirar a um papel de destaque no Parlamento Europeu“.

Até já há mote e tudo, lançado no Twitter há instantes: PSD tem o candidato ideal para “desvitalizar” o PS nas Europeias!

Passos, lançado em pirueta por Marcelo, só se fosse louco (*) é que aceitava trocar as livrarias de Bruxelas pelo frenesim de reconstruir o PSD, a tarefa que lhe vai cair no colo na noite das legislativas, se não for antes.

Ná. A coisa é entre Marcelo e Pacheco Pereira. Sei que não é 1 figura com a imagem das anteriores e tem aquela discórdia com o partido. Mas a sua combatividade, ser repetente no cargo, capacidade retórica (contra Vital vai ter de ser assim) e o seu próprio interesse em voltar a Bruxelas recomendam-no sobre o professor. E para o partido — desculpem qualquer coisinha — era um alívio. Ora, o PSD tem usado Bruxelas para se aliviar, comprova a sua lista de cabeças de lista.

Daqui para baixo não estou a ver nada que possa sequer sonhar em “desvitalizar” a campanha do PS.

Dois singelos tiros, o primeiro disparado por António Costa, o segundo pelo próprio líder, foram suficientes, numa época de rarefacção de alvos, para cumprir o calendário político do congresso. O outro calendário, o de treinar a máquina, também terá sido cumprido. Suspeito que o PS vai surpreender nas campanhas com a sua juventude, em particular. Já a presença online… o começo do www.socrates2009.pt não foi o melhor. Se era para copiar Obama, podiam ao menos ter metido o discurso do líder online atempadamente. Tinha dado um jeitão.

Quero com isto tudo dizer que o PS tem um tapete vermelho à frente? Qual, não. Apenas que o congresso teve muito mais interesse do que a maioria admitiu. Lançou o ano eleitoral, sendo o próprio PS a jogar ao ataque, quando devia ser o challenger a marcar o ritmo. Fê-lo com um trunfo pesado que resolve à esquerda e leva o nível à direita a uma altura que o PSD não poderá cobrir facilmente. Isto para começo de conversa e falando estritamente de política (há muito mais para avaliar em campanhas eleitorais, do desempenho às envolventes judiciais que este ano podem pesar).

Sidenote. Achei descabido José Sócrates não ter ido à reunião dos líderes marcada pelo Presidente da Comissão. Por causa do congresso? De Falcon, no domingo de manhã, era um tirinho.

(Foto do Congresso: Sara Marques)

[ * Louco ou nem tanto. Lembrou-me Pedro Sales: Falta 1 hipótese. Passos Coelho vai às europeias, esperando bom resultado para aparecer como única possibilidade de vencer Sócrates. Possível mas improvável. Só com sondagens revolucionárias a encorajar. ]