Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

21 de abril de 2011

Lendo a sondagem da Marktest: o PSD tem um problema, que partilha com o país

As sondagens e inquéritos de opinião valem o que valem. Sobretudo numa época como a destas eleições antecipadas, valerão menos os números que as mensagens. Sendo claro: penso que o peso da campanha para as legislativas de dia 5 de Junho será menor que em situações normais, ganhando relevância o momento decisivo, que é o confronto com a boca da urna.

Dito isto, penso ser inequívoca a leitura da sondagem da Marktest ontem publicada que dá ao PS a vitória por 1 ponto percentual, com uma recuperação de 11 pontos.

A leitura é esta. O PSD tem um problema inesperado. Chama-se Passos Coelho. A sua forma de estar e comunicar tem constituído uma desilusão. Não há forma de ver nele o líder capaz de entusiasmar o eleitorado e provocar uma onda laranja irresistível. Abre demais a boca, confundindo-se com o pretenso rival em vez de se distanciar dele. Na elaboração das listas de candidatos deu ao partido uma aura de pungente amadorismo.

Talvez não apenas aura: chamar figuras mediáticas para abrilhantar listas vá que não vá, colocá-las no topo só pode ser fruto de uma inexperiência tão insuspeitada quanto demonstrada. Nobre e Capucho são a face visível de uma desmobilização e descaracterização social-democratas que, pelas mãos de Passos Coelho, está a decorrer a um nível mais profundo no PSD.

Quando fala para as elites neo-conservadoras, Passos não se sai mal. Mas o PSD profundo (de alto a baixo) desconfia dele em surdina. E a principal massa do eleitorado — a massa trabalhadora dependente — não simpatiza com as suas falinhas mansas e discurso chapa-quatro.

De resto, há um mês já tinha calculado que o erro político de provocar eleições antecipadas se poderia voltar contra ele precisamente porque se equivocou, confundido a crise que assola a Europa (e, vá lá, o sistema político-financeiro global) com um assunto doméstico (ler: a berbintice de Passos e a política copy-paste).

Assim, o país tem um problema. Os tempos recomendam um governo de consenso alargado, um bloco central (preferencialmente sem o CDS a aumentar o ruído, mas dependendo do que ditar a divisão de votos à direita). Nisso toda a gente concorda. O problema é que o PSD — o PSD de Passos e Miguel Relvas — tem dito, reafirmado e repetido que só está disponível para uma coligação governamental com José Sócrates de fora.

Os sinais subentendidos na sondagem de ontem aconselham à mudança discursiva. Sob pena de o PSD ter de encontrar internamente gente profissional, para quem o diálogo e a negociação — duas essências democráticas — não sejam motivo de infantil birra.

“Só jogo se for o capitão da equipa” é uma frase que não se espera ouvir fora do recreio do ensino secundário. Muito menos dita por quem nunca sequer jogou.

Se o eleitorado determinar que Sócrates joga a avançado, para haver jogo o PSD terá de sentar Passos no banco e promover um reservista. Não haverá outra solução.