Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

9 de março de 2008

Se isto não é o descontentamento, onde é que está o descontentamento?

crimeviolento.jpg“Os partidos da oposição podem tentar cavalgar a onda. Sem êxito, refira-se. Há uma pergunta que deveriam fazer, sobretudo o PSD e o PP: como é possível que 100 mil pessoas se mobilizem e a oposição não consiga agregar todo este descontentamento que anda no ar?” — provoca Paulo Gorjão em O cachimbo de Magritte.

Eu arriscava uma resposta formulando outra pergunta: todo este descontentamento, Paulo?

É efectivamente um êxito que não pode ser ignorado e eu não tenciono ignorar, de todo. Mas resta-me compreender duas coisas.

1. Até que ponto podemos estabelecer um relação proporcional entre um sucesso de organização de uma classe profissional e o descontentamento que anda no ar sem que ninguém (nen os sindicatos…) o consiga agregar, o que devia fazer-nos desconfiar da quantidade e sobretudo da qualidade desse descontentamento.

2. Ao contrário de outras manifestações de organização popular (i.e., com pouca ou nenhuma responsabilidade dos aparelhos profissionais da agitação social), como o buzinão da ponte, a revolta dos professores é muito circunscrita a uma classe. Assim, até que ponto pode servir de rastilho para incendiar a sociedade?

aqui escrevi recentemente, mas com os dias a passar as certezas frouxas abrandam para a zona das dúvidas concretas em vez de endurecerem: mesmo que seja corporativo e injusto em si próprio, o protesto do professores encerra um descontentamento mais profundo. É o descontentamento das classes do meio, as mais prejudicadas do ciclo económico-político que começou em 1999, no rescaldo da Expo, e que tem vindo a erodir o poder de compra e o poder social do miolo da sociedade portuguesa.

Não sei. Temo bem que a onda de criminalidade violenta preocupe bastante mais as pessoas do que a economia, nesta fase. Ou mesmo que não preocupe, as respostas políticas a este problema — o ministro reagiu de pronto com o anúncio da contratação de mais 2.000 efectivos para PSP e GNR, o que é bem vindo pela população seja qual for o resultado — podem contrabalançar a falta delas no campo de batalha em que o ensino está transformado há mais de duas décadas.