Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de novembro de 2011

Os interfaces entre o mundo físico, atómico, e o mundo digital, dos bits, desaparecerão

O Paulo Camacho, do Jornal da Madeira, colocou-me uma questão interessante para uma reportagem a publicar na revista Olhar, daquele jornal. Partindo do “regresso dos dedos”, possibilitado pelo iPad, trata-se de tentar perspectivar para onde caminha a nossa relação com os aparelhos digitais.

Ainda o iPad não estava à venda quando aqui publiquei um artigo — iPad: promessas de amanhãs que cantam (e porque estou cauteloso com elas) — no qual evidenciei prematuramente esse aspeto revolucionário. Uma breve passagem:

O iPad promete efectivamente amanhãs que cantam à nossa relação com a informática. O iPad promete acabar com a experiência frustrante do interface que dominou, imperial e imperturbável, a relação de 99% dos humanos com 100% dos computadores ao longo dos últimos 30 anos. Refiro-me à metáfora do interface gráfico e da interacção com o rato, nas múltiplas variantes de “apontar e clicar”.

Promete acabar com a dependência do formato do ecran: ele continua rectangular, oh sim, mas temos a liberdade de girar esse rectângulo, rodá-lo com o nosso próprio movimento, de forma natural, o conteúdo, aquilo que está a ser mostrado, adapta-se à nossa posição em vez de sermos obrigados ao alinhamento com a posição dele.

Recuperado isto, acrescento agora: caminhamos para uma época onde os interfaces entre o mundo físico, atómico, e o mundo digital, dos bits, desaparecerão — ou, se preferirmos, tornar-se-ão transparentes e não envolverão nenhum esforço.

Hoje tocamos nos ecrans para enviar um mail. Nos jogos já não é necessário contacto: dirigimos o nosso avatar, ou representante, meramente através do movimento corporal. E começamos a falar para os aparelhos de uma forma eficaz (o reconhecimento de voz anda aí há 15 anos ou mais, demorou a estabelecer-se, o que comprova a dificuldade da tarefa).

Dentro de pouco tempo, um grande número de operações realizadas pelos nossos aparelhos digitais será comandado por processos naturais de comunicação: gesticular, apontar, verbalizar. A vice-versa será verdadeira: receberemos as mensagens não somente através dos ecrans, mas através da audição. E não está longe a projeção 3D.

Em suma: esbater-se-ão as barreiras que contém as representações física e digital da realidade.